29 de janeiro, 2018

RAMAR

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Tinha a mania de olhar as palavras invertidas. Idolatrava a mania de perceber a mensagem de outra forma. Foi assim com o verbo amar – via logo rama. Pensava se existiria a palavra, corria até o dicionário e… pá!
Rama: conjunto dos ramos e folhagens das árvores e plantas. Remete às variações ramada; ramagem, ramalheira, ramaria.
Após o gesto inquieto, ligava a música alta e começava a cultivar neologismos e trocadilhos sentimentais.
Ramada seria a amada diante das águas perfumadas a desenrolarem o milagre da vida em banho na cachoeira. Incutia em seu cérebro léxicos que traduziam a vida: ramar seria estar em banho de liberdade; ramada seria um particípio de suas folhagens mais íntimas e entregues à invenção de um novo mundo.
Ramaria, de agora em diante, sempre que fosse possível, porque palavra filha de amar só poderia gerar bons pensamentos e um infinito viver. Ramaria todos em sua volta, semeando o novo riso, entendendo a nova estrada indicada apenas aos quem concordar com a percepção pura de quem leva a vida a recriar.
Ramalheira? Pensava: dá verbo indireto também, justamente a quem amo. Pensava de novo. Saía: rama-lhe. Ramo-lhe mais que tudo, mais que todos, mais que a superfície psicológica possa diagnosticar. Ramo-lhe, sob o ponto de vista gramatical, seria criar uma ramada verde a quem se ama. Seria fazer com que cresça o campo mais puro já visto nesta Terra. Sendo lugar assim, não haveria poda, não haveria desmatamento, não haveria preocupação com possíveis focos de destruição.
Ramaria a você, sob céu azul com um aparato de cantos de sabiás, hidratando-se de nascentes frescas, tomando do potável, deitando-se à calmaria rejuvenescedora da paisagem que inventamos quando cedemos à mania do peito.
Tinha a obsessão por observar diferente palavras, assim como a vida, sob nova perspectiva – no intuito de versificar a magia do viver. Detinha o prazer veemente de entender mais e mais como é bonito ser um neologista das coisas jamais findas.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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22 de janeiro, 2018

SOBRE O VERBO CONVALESCER

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Que a palavra expresse o sentimento límpido, que as pessoas revelem ainda mais o íntimo bondoso, que não se tenha o temor de errar, que os erros não sejam desculpas, que os acertos ocorram cada vez mais.
Já viu céu eternamente cinza? Já viu dia sem chuva, ou chuva incessante? Mas já viu o vento alegre, mas já assistiu a um pôr do sol musical, mas já notou o milagre da criação, mas já viu mares e rios sorrindo belezas incondicionais.
Que o amigo entenda, que a mãe sempre esteja, que o pai surpreenda, que vô e vó acolham de onde estiverem, que os irmãos felizes sejam, que a família num todo sempre aqueça. Que as desavenças desapareçam, que os rancores não mais passem do que episódios bestas.
Porque teremos saudades, porque teremos carências, porque teremos aqueles mesmos velhos problemas, mas a essência da luta, fé e força convalesce.
No sugestivo subjuntivo deste desenrolar de palavras sinceras, que não haja o desprezo, que não haja o escárnio, que não nos comparemos, que não nos sacrifiquemos a ponto de esquecer o que é o bem, que – apesar dos desvios – exista a humildade.
O amor é honesto, o amor apenas machuca quando não queremos entender a lição, ou mesmo quando nós escolhemos o caminho doloroso. Amar nada mais é do que o aprender constante, diário, sem querer que tudo ocorra como imaginamos. É utópico a quem é utópico, é distante a quem é distante, é presente a quem se faz presente, é recíproco a quem é.
Se tudo fosse perfeito, seríamos perfeitos; defeitos nos moldam constantemente, já que precisamos entender a que e a quem viemos. Uns entendem mais lento, mas todo ser ciente aprenderá no seu tempo.
Que tudo seja em função de construir uma digna história, que sejamos recheados de boas memórias, que a crença melhore, que o riso cesse todas as lágrimas tristes, que os fortes ajudem os fracos, porque num dia os fracos serão fortaleza a doar serenidade.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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19 de janeiro, 2018

SER SOL, NUNCA SÓ

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RESSIGNIFICAR: o que era pedra, mas polido pela persistência de amor incansável, passa a ser flor. O fantástico só existe quando há a crença na magia; seres fantásticos não temem em usar a fantasia a favor. Ao contrário dos descrentes, audaciosos íntegros renascem aquilo e aqueles que desejam intenso.
Por isso,
RECOMEÇAR: sorrir quando se volta ao ponto inicial, apesar do irônico da plateia mundana. É fazer tudo com a mesma energia, contudo ciente das lições aplicadas. Ter vários inícios é sinal de vários caminhos; é nobreza dos que vêm com a certeza de quererem o sonho. Rever rotas, revisar as asas, descansar para voar pleno.
Por isso,
REPASSAR: passados só são úteis para futuros de céu azul e tranquilidade; quando não são positivos, devem ser deletados com a ajuda das fontes amorosas no lar. Ninguém quer repassar maldade, mas o faz (in)consciente, porque tornar a batata quente pote de ouro é tarefa diária. Pensamento ruim é como luz alta de caminhão na estrada – a alma fica desgovernada.
Por isso,
RENASCER: hoje é o dia de dar à luz, amanhã também, e depois, e depois. Está-se grávido de novos egos, novos dias, novos abraços, novos perdões. A força do “Eu amo você!” é não olhar para trás ressentido, mas sim renascido. “Eu amo você!” é a maternidade de uma nova pessoa. “Como você mudou! Que aconteceu? Eu apenas renasci.”
Por isso,
REVIGORAR: sempre é hora de ressentir, embora tenha o verbo duas estradas significativas: “magoar-se” ou “tornar a sentir”. Tornar a sentir é gostar das pulsações, de afeto, de atenção e de ser ouvido. Daí, renasce o revigorado. É como o sol: que nasce e morre todos os dias aparentemente igual, conquanto não seja. Pessoas são sóis, não podem fugir da função de aquecer, da função de brilhar. Uma vez que não mais é assim, deixa de fazer sentido. Revigorar todos os dias as outras estrelas ao redor: ser Sol, e nunca só.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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