02 de junho, 2016

É sempre tempo de ser feliz

Por que não somos sempre correspondidos? Porque certamente não dizemos na linguagem do outro. Se o outro pede água – porque tem sede -, não forneça um bom champanhe – mesmo sendo a mais fina das bebidas. O que é elegância para um, para o outro é gaseificação extrema.

Por que a vida não sorri para mim? Por mais louca que pareça esta visão, risada nem sempre é bem-vindo. Com toda a certeza do mundo, na seriedade do cotidiano, você pode estar crendo que todos os sorrisos do horizonte não passam de um deboche.

Terei eu, algum dia, um príncipe ou princesa encantados? O encanto jamais estará no outro; a fidelidade jamais estará no outro. Valores são criados em uníssono. Amor verdadeiro não se divide; amor verdadeiro só existe quando o gene de um encontra o gene de outro, entrelaçam, vivifica.

Por que, então, milhares de relações terminam, extinguem, acabam? Não há relação com fim (no sentido mais literal da palavra). Acalme-se. Lá no infinito, vocês terão de conviver novamente. Tudo tem o seu tempo. A finitude é tão relativa quanto a não finitude.

Há amor passageiro? Amor jamais passa. Amor é.

Apesar disso, por que criamos inimigos? Por que, às vezes, surgem inimigos? Porque, em determinados caminhos, não tivemos a lucidez de errar menos ou fomos atingidos por forças “enigmáticas” do mal. Só atingimos o ápice da honra da evolução quando entendemos que nós mesmos temos uma parcela na criação de quaisquer inimizades.

Tudo bem! Já sei tudo isso! Então o que é felicidade? É viver sem medo de errar, mas viver em função dos erros é distanciar-se da plenitude. Felicidade é ir ao encontro do bem, é emocionar-se com mínimas formas de vida. É ter tempo de externar esta coisa muito valiosa chamada você. Felicidade é você.

Lembre-se de que há sempre tempo.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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31 de maio, 2016

DESPEDIDA

É hora de ir embora. É hora de esvaziar os guarda-roupas, recolher livros e discos, encaixotar taças e ternos, fechar as janelas e os registros. É hora de ir.

É hora de revisitar as últimas madrugadas do lugar em que se viveu, rir do trânsito caótico, pedir já com saudade a coxinha do BH, o café do Chibanas, abraçar a dona Chiquinha e ficar longos segundos sentado sobre o banco da capelinha da rua da Glória.

Na cruel despedida, dói entender o olhar do amigo que, de longe, abraça-o com sobrancelhas que choram.

No momento de ir, restam – outrossim – retratos mentais: de vinhos poéticos, de papos amenos, de tardes e noites de esperança e retribuição. É da miserável rotina de que sempre teremos saudade.

E indo, de fato, choramos, rimos dos inofensivos apelidos, dos erros bobos, dos acertos, do que foi despretensioso, do que foi sonho, do fim do jogo.

Na despedida, até o que era ruim tem o seu lugar. No entanto, o que era bom estará sempre conosco nos nossos melhores aposentos, que jamais se empoeiram. Não estará, será. Do verbo eterno ser.

É! Os minutos passam, é preciso tirar os eletrônicos da tomada. O caminhão já está lá embaixo à espera da mudança. A mala, que vai conosco no carro, com roupa para poucos dias, tem zíper com barulho de adeus.

Quando é chegado o tempo, os olhos criam asas; o coração, pernas. Tudo sabe que é hora de partir.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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27 de maio, 2016

Uma Força Verbal – o Subjuntivo

            Que as mais macias palavras escorram por nossas almas. Que campos de lírios, sorridentes, esperem-nos, ao lado da cachoeira de nossos quintais. Que badalares de sinos cochichem segredos afinados. Que finas penas registrem nossas frases com gosto de chuva. Que cigarras declamem sonetos bilíngues, à meia-noite de nossas estações.

            Desejos de amor são como os pianos, sonantes a quem compreende partituras.

            Que as cabeleiras voem além dos penhascos da vida. Que as xícaras coreografem valsas com taças, entrelaçando cheiros de saudade. Que os subjuntivos sejam conjugados em suas pernas, suaves nos andares às nossas avenidas. Que os olhares apalpem-nos sob brancos lençóis de paz. Que pores do sol ressignifiquem apelidos, em noitinhas de poesia. Que garçons tremulem diante de nossas mãos, que suam reciprocidade. Corramos agora pelo restaurante sentimental!

            Desejos de amor são como as árvores, incansáveis formas frutíferas.

            Que os pincéis chorem telas expressionistas. Que navios assobiem lembranças da paisagem de seu corpo. Que o leste-oeste abrace o norte-sul. Que a sede de sílabas filtradas hidratem-nos de ventos solidários. Que a amizade sustente palcos habitados de intimidade. Que as rádios sintonizem aqueles jazzes compostos por sabiás que jamais conheceram gaiola.

            Desejos de amor são como o azul, travesseiro tonante de qualquer poeta.

                                                                                    DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

 

 

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