27 de agosto, 2015

Meu Quarto, um Pedaço de Mim

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MEU VELHO QUARTO

De vez em quando, pego-me aqui pensando naquele travesseiro, no cheiro de meu antigo quarto, no Tom & Jerry na tevê, na mãe trazendo pão de queijo. Como tenho saudade de conversar com meu antigo quarto, de filosofar com aquelas paredes.
No pensamento, ainda me pego abrindo o guarda-roupa, vendo-me diante do espelho na porta do meio. Fazia caretas, ria, ia de um lado a outro, tentava assustar a própria imagem e tropeçava-me direto à cama.
Fazia da sandália microfone, imitava o Roberto, via o público, dizia das tantas emoções, da risadinha e chamava o amigo Eraaaasmo Carlos. Ao fundo, o constante pedido de minha mãe para que eu não gritasse ou o velho “Vai fazer a tarefa de casa, menino!”.
Pulava de novo, com a ajuda do colchão, ligava a tevê e chorava a alma com a triunfal entrada de Patropi, na Escolinha do Professor Raimundo. “Sem crise! Sem crise!” era o que repetia minha felicidade.
Ah! Aquele quarto, com os livros doados pelo tio João, com todos aqueles contos de Allan Poe, de Machado, de Braga, de Fonseca. Ajoelhava-me diante dos olhares sinistros de Clarice Lispector, via estrelas às cinco, pensava estar em Júpiter – tomando o melhor café em casa extraterrena.
Com mais um salto, colocava a camisa nove do Goiás, o calção Adidas, alucinava-me em narrações futebolísticas. Vai, ajeita a bola, chuta! Que golaço! Minhas cordas vocais sentiam-se como o Edson Rodrigues (o maior narrador esportivo deste país). Eu fazia questão de decorar todas as vinhetas do rádio, organizava estações, fazia voz dos ouvintes, de locutor, distribuía prêmios.
Tudo naquele quarto, que hoje só abriga roupas antigas, álbuns antigos de figurinhas do Campeonato Brasileiro e da Fórmula 1 e um rádio. Vontade de ali chegar e rolar naquele chão, para que o concreto sinta-se abraçado.

DIOGO ARRAIS
@diogoarrais
@mesmapoesia

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26 de agosto, 2015

Mulher Odeia Gente Clichê

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No quesito inteligência e sensibilidade, não tenho coragem de desafiar uma mulher. Mulher odeia o óbvio, odeia a mensagem comum, a conversa sem força, a pegada gélida.
Hoje entendo o porquê de não ter a resposta no WhatsApp, quando uso a frase besta do “Oi! Tudo bem?”ou “Saudade!”. Isso é obviedade destruidora e, literalmente, broxante.
Desde muito nova, a mulher se emociona, é velha amiga do abraço, adora a palavra e tem livre trânsito com a gentileza. Mulher é a parte nobre em um mundo semicaótico (para ser brando com o prefixo).
É tão inteligente que, ao se dirigir a ela, não adianta ser excessivamente doce; cavalheirismo não pode ser confundido com a ineficiente “babação”. É preciso mais que algumas rimas com “amor”, “calor” e “sabor”.
É à altura de uma mulher a frase bem-pensada, com a qual se busque o acrescentar ao cotidiano dela. Ela busca, mesmo que seja na amizade, a verdade e o “não jogo”.
Ela não quer o diálogo bruto; quer algo que a leve ao riso. Não aquela piada do grupo dos pescadores, mas a sátira saudável ao cotidiano. Diante de qualquer situação, uma mulher pode ser má, sendo boa; pode ser boa, sendo muito má.
É a mulher, caro leitor! A inatingível inteligência para o cérebro masculino, que pensa bem próximo dos joelhos (e suas óbvias articulações).
Que não se venha com essa de “Vamos fazer algo? Você gosta de filme?”! Ela quer a exclamação sobre o enredo, a organização das personagens e beijos nada medrosos. Se quisesse o oposto, ela responderia à imensa lista de pretendentes em seu telefone celular.
Não tente fazer metáforas com mulher, pois todas serão literais e capazes de arruinar o pouco que você – às vezes – já conquistou. Nada de “mulher é como…” e “as mulheres são…”. Basta saber que mulher é mulher e ponto.
Por isso, quando percebe o respeito alheio, ela admira, é fiel, perdoa, professa cuidados e recria mundos.
DIOGO ARRAIS
@diogoarrais e @mesmapoesia

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25 de agosto, 2015

O Ódio

Semanalmente, aqui no Mesma Poesia, escrevo sobre uma paixão minha: a Língua Portuguesa. Segue abaixo o primeiro texto:

Ódio é uma paroxítona. Paroxítona finalizada em ditongo. Paroxítonas têm a penúltima sílaba forte. No caso do ódio, a sílaba vem ficando cada vez mais forte e dolorosa.
Ódio tem duas vogais, já que se conhece esse número vocálico pela quantidade de sílabas. Ó-DIO. O “i” – acompanhante – é semivocálico.
Ódio possui o acento gráfico agudo, aberto no som, fechado na significação. Ódio está até no dicionário. E nas mídias sociais.
Ódio, do latim odiu, é substantivo masculino; refere-se à aversão a pessoa, atitude, coisa; repugnância, antipatia, desprezo, repulsão.
Por quesitos de regência nominal, exige a preposição “a”. “Ódio à boa conversa!” – escreveria o professor das gramaticalidades e gramatiquices, na lousa verde apartidária.
Por quesitos de regência verbal, é transitivo direto, não exige preposição alguma. “Odeie seu ódio” – picharia assim a regra.
Odiar, por exemplo, é um verbo estranho. Apesar de ser finalizado em -iar, sua conjugação é tão atípica quanto a dos verbos “mediar”, “ansiar”, “remediar”, “incendiar”. Quem odeia incendeia o parágrafo; quem odeia não medeia a conversa sensata. Quem odeia anseia dias melhores?
Pego-me, enfim, pensando nos versos de Caetano, em primeira pessoa do singular, na canção Odeio: “veio enfim o e-mail de alguém / odeio você”. Com essa hospedagem moderna de tal sentimento, ora verbo, ora substantivo, venho – aos poucos – me desconectando da exposição de algumas opiniões e citações.
É esse paroxítono o culpado pelo sangue na esquina, é esse do acento agudo o indicador de distâncias, é esse nome cruel que exige a preposição A e que se esconde em falsos perfis.
Ódio.
DIOGO ARRAIS – @diogoarrais e @mesmapoesia

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