23 de agosto, 2015

A mais Linda e o Anti-Herói

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Somente mais velho eu me conscientizei  da tara louca que a maioria das mulheres sente pelos anti-heróis. Como não pude saber disso antes?!
Na adolescência, eu fazia questão de pentear os cabelos de lado, roupa irretocável, combinações como mamãe admirava, tênis branco que invejava a noção de impecável, coroinha bem-educado nas missas da Igreja. Tudo errado!
Sempre muito respeitoso com a caligrafia, lápis, canetas e livros devidamente organizados na mochila, provas com a melhor resposta possível, boletim de notas que nunca me levaram a qualquer castigo, separações silábicas em acordo à norma.
Em toda a minha educação fundamental, tive apenas uma nota 5 (na então denominada 5ª série). Em todo o percurso escolar, dificilmente tirei menos que 8,5. Resultado? Um fracasso perante as mulheres que desejei com o amor mais calígrafo.
Era muito estranho saber que a Maiara, com aqueles olhos e toda aquela distribuição de adjetivos, tinha perdido a virgindade com o Rodrigo. O cara usava aquelas calças folgadas, desafiava o coordenador, dirigia sem carteira, apertava bundas e peitos, sempre tirava as piores notas da sala. Num misto de ciúme e revolta, olhava discretamente a Maiara contar suas aventuras de amor para as suas amigas, no recreio. A risada alta dela eu entendia.
Apesar de muito correto no pagamento dos impostos escolares, tinha um bom trânsito comunicativo com outros anti-heróis da sala. Cheguei até a perguntar: “Cara, o que o Rodrigo tem? O cara não sabe nem escrever, trata com desprezo, está sendo quase expulso da escola e a Maiara pira no cara?”. Recebia uns “Cuida da sua vida!” ou “Ele tem carro!”.
Várias garotas seduzem-se por uma determinada sujeira, pelo rasgo nas calças, pela camiseta dos Ramones, pela desobediência latente, pela atitude rebelde diante de uma sociedade cruel.
Ah! Se soubesse que o anti-herói seria tão sedutor! Eu não teria cuidado de tanta limpeza, teria tirado algumas notas mais baixas mesmo sabendo a matéria, teria desobedecido à ditadura escolar, não teria confessado durante a Catequese, mesmo porque as próprias colegas da Catequese ficavam com os garotos que pichavam os muros do bairro e derrapavam nas esquinas.
Diante das memórias, ainda me lembro do dia em que a Maiara elogiou a minha redação e até me deu um beijo na bochecha. Fiquei vermelho e ela caiu na gargalhada.
Como fui ingênuo e burro!
E ainda há as mães que se fazem de desentendidas quando suas princesas filhas contam que perderam a virgindade para o sujeito mais anti-herói da classe…

DIOGO ARRAIS
@diogoarrais e @mesmapoesia

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22 de agosto, 2015

Meu Beijo de Língua Envelhece

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Às vezes penso que meu beijo envelhece. Isso é chato, saudosista e uma espécie de sofrimento pulsante.
Gostaria de ter o poder de rejuvenescer meu beijo. De voltar àquele beijo de 1996, quando tinha 14 anos, quando misturado ao toque das mãos, minha vitrola tocava Pescador de Ilusões e era o bastante.
Gostaria de ter de volta aquela sensação dos beijos escondidos, no clube em que fazia Natação. O beijo era o gozo daquela surpresa cena. O das línguas estagiárias na busca pelo ser feliz.
O beijo de 96 gelava as canelas, lubrificava a alma com ingenuidade, não se preocupava com o futuro, não se metia a satisfações, era mais fiel, era o ato que redigia cartas mais honestas, era adrenalina, parecia contravenção.
Se eu tivesse o poder de conversar com aquele beijo, faria um pedido: “Por gentileza, volte àquele dia! Apareça como naquele verão, em que o Netinho tocava Mila em todas as estações!”
Vejo meu ato de triscar lábios alheios muito maduro, caducando-se e refletindo sobre várias situações: “Dará certo?”, “Vou sofrer?” ou “Estou pronto para o amor?”.
– Bah! – diria o beijo de 96.
Ele diria que sou muito careta, excessivamente preocupado, um velho ranzinza na pele de um cara de 33.
Esse ato amigo talvez também me fizesse alguns pedidos, como o famoso “Seja feliz e o resto que se dane!” ou “Caso você ligue para as opiniões alheias, elas nunca atenderão sua ligação!”.
Só de pensar naquele beijo louco, vem a mim aquele riso solto de quem beijava sem medo dos amadorismos. Vem a mim aquela ousadia adolescente.
Dessa forma, será que conseguiria me encontrar novamente com o beijo de língua de 1996?

DIOGO ARRAIS
@diogoarrais e @mesmapoesia

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21 de agosto, 2015

O DIA EM QUE A DANI NÃO ACEITOU AS MINHAS ROSAS

DaniFoi com quinze anos que a Dani negou um buquê de rosas dado por mim. Certamente um dos dias mais tristes de minha vida. É história e merece ser contada.
Com quinze anos ainda, tinha dado poucos beijos na boca e, na reunião para apresentação de um trabalho de Biologia, conheci lábios que me marcam até hoje. Quente, nem molhado, nem seco, sem dente batendo, mãos em cintura desenhada e o desejo de “fica comigo até o tempo não seja mais tempo”.
Nessa época, o verbo ficar era de pouca popularidade e aquele beijo foi suficiente para eu achar que seria namoro. Homens adolescentes (na verdade nunca deixam de adolescer!) são muito lentos e babões.
Por causa do beijo de Dani, ouvia qualquer tipo de música e pensava em amor. Em casa, na escola, no Inglês, no Futebol, tudo era Dani. A comida era Dani, o banho era Dani, a tevê era Dani. Que miserável foi ela quando me enviou uma foto só de biquíni! Uma foto impressa de biquíni! Sempre despi aquele retrato.
Bastava uma lerdeza dos outros, para que nós dois compartilhássemos língua. A adrenalina e o sentimento do beijo na escola temperavam mais aquela “situação” para ela, namoro para mim.
Esses históricos dias de minha vida duraram até o 12 de junho de 1998: Dia dos Namorados.
Nunca ganhei mesada, mas meus pais faziam questão de me dar um trocado. Guardava as ralas notas no cofrinho da Caixa Econômica Federal.
Um dia antes do fatídico dia, no dia 11, fui até a floricultura, acompanhado de todas as minhas economias. Escolhi as rosas mais bonitas diante do novato vocabulário romântico. Redigi uma carta, respeitando a caligrafia e com a tinta de minha artéria. Burro! Era só uma “ficada”.
À noite, dormi em frente às estrelas.
Chegado o dia, por volta das 9, um pouco antes do recreio, o coordenador avisou à classe de aula: “Dani, chegou um buquê para você!”. As colegas automaticamente olharam Dani e suspiraram; os colegas deram-me empurrõezinhos.
Dada a hora do recreio, furiosa, ela veio a mim com as frases “Você só pode ser louco!”, “O que eu vou dizer a meus pais?” e “Você não sabe o que é ficar?”.
Emudeci.
Ao fim da aula, Sarah (fã de Legião Urbana) viu-me recolhendo as rosas. Pediu-as. Entreguei. Sorri, com olhos baixos, pelos cantos da boca.
Ainda pude ver o meu amigo Marco André na esquina. Gritei para que ele me esperasse e subimos a pé para casa.
DIOGO ARRAIS
@diogoarrais e @mesmapoesia

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