30 de setembro, 2015

Caso contrário, é Luta em vão

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“Abrir a porta de casa e ver seu sorriso; vê-la imitando-me diante do espelho; preparar aquele risoto; tomar banho juntos…”

É velha e verdadeira a metáfora “A vida é uma batalha!”. Pois bem: meus desafios só terão sentido se você estiver ao meu lado. Caso contrário, é luta em vão.
Quando sozinho, os caminhos me levavam a um quase eterno economizar, a casa não tinha seus barulhos, os móveis desfrutavam de todo o espaço, a cozinha ainda não vivia aquelas hilárias cenas de romantismo, os lençóis sobravam, a escova de dentes era ímpar, os mantimentos perdiam-se em meio a tantos armários.
Com você, os espaços mudaram a indefinida decoração do nada, as taças passaram a sorrir, os filmes ganharam outros finais, a sala de estar ganhou outro nome, os lençóis passaram a se emocionar, nossas sandálias passam a dormir abraçadas e… a “batalha” começa a fazer total sentido.
Com você, não acho mais que o amor estava no trabalho. A busca insana pelas promoções diminuíram, iniciei o coaching “bater metas” no amor. No nosso habitado canto, passei a escrever bobos poemas no ímã da geladeira. Passei a dar valor na padaria, na escolha por pães quentinhos, no nosso vinho clichê de quinta, no nosso café expresso que lembra a casa dos seus pais.
Com você, passei a arranhar acordes no violão, passei a ouvir aqueles discos antigos do Stone Temple Pilots, a correr com joelhos amortecidos de um sentimento único.
Com você, mesmo no escuro, sei a quem gritar. Diminuí dores, vi outra compreensão na frase nem tudo são flores, afinal você é flor. Passei a ver novas nuvens que choviam há muito, mas meus horizontes não me permitiam irrigar. Passei a aparecer em retratos somente agora revelados, passei a cantar com outra corda vocálica, passei a chorar outras lágrimas, passei a ser água em vez de pedra, passei a ser gente em vez de máquina.
Na verdade, neste exato momento, deveria estar organizando uma série de planilhas Excel. Não consigo, pois minha mente agora desconhece o sabor de tantas raízes quadradas. Ela quer o alimento mais nobre a cérebro e coração: você.
Pois bem: meus desafios só terão sentido se estiver ao meu lado. Caso contrário, é luta em vão.

DIOGO ARRAIS – @mesmapoesia

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26 de setembro, 2015

Pêlo

Em tempos de ultravalorização estética, depilaram até o acento circunflexo de “pêlo”. Seria uma espécie de higiene gramatical ou uma afronta ao tradicional belo?
Sou daqueles que admiram os “pêlos”, pois as palavras Cláudia Ohana não caem nas ambiguidades, nas bipolaridades perigosas a quem deseja passar a mensagem.
Pêlos representam minha alma “vintage”, minhas memórias, minhas declarações juvenis, minhas fotografias preferidas.
Quando redigia as intensidades, fazia questão de evocar o benquisto circunflexo – justamente para indicar a precisa descrição. Ela, o quarto, os lençóis, o bilhete que eu deixara sob o travesseiro, o jazz baixo, os abraços em sussurro.
A gramática da vida, com a lógica da reforma ortográfica e dos paroxítonos finalizados em O, arrancou-me mais que um acento; arrancou-me um acorde textual. É incompleto o mundo sem pêlo.
Meu Deus, as palavras não podem ser tão nuas!

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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23 de setembro, 2015

O PODER SANGUINÁRIO DA DESPEDIDA

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O momento da despedida sangra nossas mais ocultas páginas; sangra nossas memórias; sangra as pálpebras; sangra as esperanças. Despedir-se é isto: tem enorme poder sanguinário.
Sabendo disso, muitos seres optam pela não despedida. Sabem a data da partida, mas saem à francesa. Preferem deixar um bilhete, com singelos dizeres. Não vale julgá-los meramente por frieza – eles sairiam completamente ensanguentados do momento.
Há aqueles que se despedem de todos os objetos antes da partida: tocam abajures, abrem e reabrem as portas do guarda-roupa, acariciam camisetas, reveem discos, beijam o Fusca na garagem, olham para cada canto como se cada canto fosse um ente querido. Beijam a única cafeteira, por terem a amado fielmente.
Há também os que são apunhalados pelo “bota-fora” surpresa e o sangue de tantos “Fica bem!” espalha-se por todos os lados. Eventos-surpresa são incêndios em nossas gavetas; eventos-surpresa são rebeldia em excesso. Nesse tipo de situação, a lágrima pede para deixar de ser lágrima, não aguenta mais ser solicitada em demasia. Lágrimas são como o gelo na bebida – nem muito, nem pouco, sem derreter.
O estágio mais sanguinário de uma despedida é receber uma homenagem de um velho amigo: é uma situação de quase morte. Sou daqueles que nunca quero me despedir de um amigo, pois sei que eu me ensanguentaria, em todos os sentidos que tal verbo possa emitir.
Enfim, não é nada bom ficar lembrando despedidas, pois pareço ver que até as rodinhas da mala quereriam abrir mão do ofício. Aquela gente querida, em círculo, esperando o último abraço, aquele senhorzinho com a rosa na mão, aquela criança muito míope tentando em vão reter sua armação, aquela senhora-tia trêmula para uma das últimas fotografias, aqueles malditos sussurros afônicos.
Quando busco revisar o conceito de insanidade, vem à minha mente o sujeito que – na rodoviária de Belo Horizonte – me disse adorar estar em qualquer tipo de despedida.
Insanidade está na devoção por tamanha dor.

DIOGO ARRAIS
@mesmapoesia e @diogoarrais

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