21 de setembro, 2015

Eu, Sede; Você, Água

eusedevoceagua

As letras são sempre as mesmas do alfabeto. No entanto, o pensamento em você é o que as embaralha para surgirem as distintas palavras que sempre busquei. Sem você, sou letra solta, consoante isolada, afônica.
Dadas as mãos, posicionamo-nos sobre cada tecla, formamos acorde. Tocamos o trecho de Bach, triunfal em nossa união.
Somos remos sincronizados e, assim, podemos navegar – mesmo com a ventania insana dessas marés.
Como caneta e escritor, fazemos textos.
Que seria da sede se não fosse a água? Apenas um desejo? Você, sede; eu, água. Eu, sede; você, água.
Gosto de pensar em como nos completamos. Gosto de saber dessa dependência bem-vinda, dessa coreografia, desse ritmo sincronizado, dessa dança de almas.
Gosto de ver os olhares que se cruzam e dialogam: “Eu preciso…Sim! Taça! Vou já…Não se esqueça de que… Sim! Dia de mais um mês nosso! Tim-tim!”
Não somos nada diferentes dos outros seres. Somos pessoas do mesmo alfabeto. No entanto, conjugamos nossos verbos; conseguimos (com luta e doação) a combinação de nossas letras para a construção dos nossos vocábulos; sonhamos com nossos livros, devidamente em destaque na seção Romance.

DIOGO ARRAIS
@diogoarrais e @mesmapoesia

Compartilhe este texto
0 Comentários
18 de setembro, 2015

Passear Você

PASSEARVOCE
De longe, ficava reparando suas esquinas. Permitia – com muito prazer – que meus sentidos passeassem por você. Aquela mania fez-me apaixonar por suas geometrias.
Já se passaram mais de dez anos e certamente você nunca soube como estive por cada caminho seu. Percorria suas ruas, seus caminhos de terra, andava por suas calçadas, implorando por suas mãos. Volta e meia, parava-me em frente a seu mirante e via seu pôr do sol.
Ninguém que estava ao meu lado entendia minha paralisia daquelas horas. Eu apenas dizia que estava passeando. Isso geralmente ocorria no intervalo das aulas na Faculdade.
Certa vez, tive a bela surpresa de ver o nascer do seu sol, brilhando cada rua de seus bairros, seus semáforos, suas rótulas. Imagem surreal que guardo nos meus desejos mais insaciáveis, das minhas descrições mais secretas.
Naquele seu sol, debrucei-me na sua esquina mais sensual, aquela da direita, perto de sua igreja. Fiquei naquele lugar que me trazia pensamentos duradouros, reconfortantes e de diversos pecados.
Por tempos, procurei inventar motivos para me mudar para seus lugares, já havia até escrito uma carta a toda a minha família, relatando o motivo de minha definitiva mudança. Faltou mais coragem. Talvez tenha gastado todas as minhas invenções para achar caminhos diferentes para passear em você.
Recordo-me de cada placa, de suas brancas sinalizações, de seus edifícios, de suas praias, de suas cachoeiras, dos seus quartos sempre cheirosos, de suas livrarias repletas de lições, de seus teatros em art déco, de cada pequenino restaurante seu e aquelas taças sempre formosas. Em seu ser, puder ver as paisagens mais invejadas pelas fotografias. Sem medo algum, sei que minha visão encontra-se num estado mórbido, de depressão, por jamais ter visto tantos cenários de luz, pecado e perdão.
Este texto é, no mínimo, um alento. É, outrossim, um pedido para que você reapareça e que não deixe meus olhos secarem. Volte àquele banco de concreto, ao lado da biblioteca, ajeitando seus fios de cabelos – que a mim são as mais nobres imagens de amor.
Saiba: preciso, com urgência, estar em suas habitações. Temo pela visão e sentidos.

DIOGO ARRAIS
@diogoarrais e @mesmapoesia

Compartilhe este texto
1 Comentário
14 de setembro, 2015

Seu Beijo é um Mundo

SOBREOBEIJO

Antes de você, os beijos eram apenas beijos. Com você, os beijos passaram a ser uma transposição a um novo mundo. Seus lábios, aeronaves, levavam-me para onde não há tempo, onde não há sede, onde não há vento, onde não há cores, onde não há nada – a não ser seu beijo.
Antes da sua chegada, os ponteiros sacrificavam-me, mostrando atrasos desnecessários, passares dos dias, dos meses, de tempos apenas marcados. Era a amarga angústia por não conhecer as carnes que me ligavam a uma abstrata sensação de viajar.
Com seu beijo, pude saber como, de fato, é voar; como, de fato, é sentir cada instante dado a um homem-pássaro. Com o simples triscar daquela sua parte corporal, meu ser fazia as malas, arrumava-se, vestia a melhor camisa, calçava-se de artérias e partia para o tal paraíso.
Lá, nem audição havia; eu era apenas convidado pela língua a degustar mensagens codificadas em um idioma ainda desconhecido no meu mundo pré-beijo seu.
Nesse lugar, não havia a necessidade de luz, não me sentia na escuridão. O medo tinha medo de ser medo e jamais afrontara nossas vontades de beijar. Emocionado, quis escrever algo sobre. Em vão, já que eu era dominado completamente por uma esfera prazerosa e que faziam mãos serem muito mais que caligrafias.
O mundo ao qual seu beijo levava-me também não conhece a gravidade. Nada ali cai, nada ali pesa, simplesmente paira e os impostos giram em torno de carícias. A necessidade era apenas essa.
De repente, estávamos no meio de uma avenida famosa, de uma metrópole brasileira, quando nos aproximávamos e… pronto! Estávamos já dentro daquela sua inimaginável aeronave. Num instante, chegávamos. Você, ciente da direção, ao ser indagado para onde me levava, abriu lentamente os olhos e sussurrou no ouvido de seu único passageiro: amor.

DIOGO ARRAIS
@diogoarrais e @mesmapoesia

Compartilhe este texto
2 Comentários