10 de setembro, 2015

FOI DIFÍCIL VÊ-LO

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Foi difícil vê-lo.

A praia estava praticamente deserta, éramos eu e uma música do Coldplay no fone de ouvido, as ondas não conspiravam para ação alguma, o clima parecia ser o pior possível, as gaivotas – naquele dia – não compareceram.

Foi difícil vê-lo.

Sentada, sozinha, com o olhar já meio bêbedo perante o horizonte, veio um clique mental para que buscasse uma água de coco, na solitária barraquinha próxima ao asfalto. A força da mente fora maior que a da preguiça daquele e fui. Detalhe: mulheres têm uma incrível crença na força do pensamento.

Foi difícil vê-lo.

De largo sorriso, o ambulante ofereceu-me a água geladinha, quando os cílios se assustaram: um outro olhar, do outro lado da rua, fitava-me em irretocável sintonia. Tudo, a partir daquele instante, mudou: as gaivotas apareceram, o sol sorriu, as ondas me abraçaram em suas marés já não tão solitárias assim.

Foi difícil.

De trêmulas pernas por um olhar, não houve como voltar. Não havia ninguém que pudesse julgar meu ímpeto. Mesmo descalça, sem qualquer tipo de aceno, eu decidi atravessar areia e rua, para ir ao encontro daquele olhar.

Difícil.

Mudar a paisagem ali seria necessário. O risco temperava cada pêlo meu contra o vento. Nem me importei com a faixa de pedestre. Sem qualquer tipo de diálogo, houve, aconteceu, existiu, e estamos juntos até hoje. Cada detalhe daquela cena ficou como um dos melhores retratos da minha vida, simplesmente porque acredito que – apesar da dificuldade – o amor pode estar nas mínimas e improváveis cenas.

DIOGO ARRAIS
@diogoarrais e @mesmapoesia

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07 de setembro, 2015

Milton (re)Nascimento de Alma

Atravesso versos
Faço café
Suo sílabas
Desenlato amor
Varro lágrimas
Calço paisagens

Ao som de Milton
renasço

Diogo Arrais – @diogoarrais e @mesmapoesia

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06 de setembro, 2015

Um Convite à Lágrima

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O melhor convite à lágrima está na simplicidade. Está naquele cafezinho quente da padaria da esquina, naquele pãozinho na chapa despreocupado, naquele copo americano humilde que oferece abraços.
O convite à lágrima está no bom-dia de sorriso daquele motorista de ônibus, na frase fácil da atendente do supermercado, no aperto de mão do médico, na animação do porteiro do prédio, no beijo do Gordo pela tevê, no verso de Cecília.
O convite à lágrima está naquele ovo frito, com a gema mole, feito pela mãe. Está no artesanato feito pelo vovô, no abraço daquele velhinho que só queria ver o neto brincar. Aliás, vovôs e vovós são professores de lágrimas. Geniais em cenas recheadas das melhores simplicidades.
O convite à lágrima está na namorada boba de paixão, à espera no aeroporto. Está no sorriso da aeromoça, que impede quaisquer turbulências. Está naquela criança brincando com o bonequinho do Woody, com aquela pergunta que rasga qualquer coração – “Quer brincar comigo?”.
O convite à lágrima está no pedido de ajuda. Está naquele vendedor de algodão doce, que jamais esqueceu você. Está naquele bilhetinho com a mensagem bíblica, a qual ela faz questão de entregar. Vendedores de algodão doce são mestres em encantamento.
O convite à lágrima no crochê e nas agulhas daquela senhora, que apesar de morar sozinha fez das coisas simples sua família. Está naquele macacão jeans, com os sapatinhos que dançam admiração. Está naquele bilhete tímido deixado em sua mesa por um garçom gentil. Está naquele café da manhã, feito pelo seu amigo, naquela manhã da pescaria.
O convite à lágrima está nas mínimas ações, nos goles de intensidade, nos beijos de amor e na mão que se emociona com qualquer adeus.

DIOGO ARRAIS
@diogoarrais e @mesmapoesia

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