04 de setembro, 2015

Uma Fracassada Serenata de Amor

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Naquele tempo, não tinha como arcar com os “custos” de uma relação. Minha imaturidade era jovial, inocente, não condizia com a sua. Minha liberdade permitia apenas que voltasse a casa, antes da meia-noite. Gostaria muito de ter sido desobediente com tudo isso. Muito menino, eu me rebelava apenas naquelas cartas de amor que jamais saíram das gavetas e… perdi você.
Como, àquela época, gostaria de ter ligado o som do carro, com John Mayer, e levado mais flores a você. Tocaria a campainha de sua casa, estaria nu diante de minha timidez, saberia como dialogar com seus pais e diria toda a gramática adequada a quem sabe se socializar. No entanto, seguimos caminhos distintos, porque fui imaturo e não transgredi regras.
Àquela época, preocupava-me com os possíveis amassados do uniforme escolar, com notas que não deveriam ser abaixo de “oito”, com o que as pessoas pensariam de mim, com o excesso do respeito aos rígidos conceitos sociais.
Tentei muito ser adulto mais rápido. Furei a orelha esquerda, ouvi sons inspiradores, toquei contrabaixo, cantei pensando em você e meu sucesso nunca atingiu seu coração. Lembra o dia em que fiz serenata em frente a sua sacada? Naquela minha magreza rasgada, acordei a vizinhança com “Eu procuro um amor que seja bom pra mim…”.
Depois, ouvi de você duras lições a um homem adolescente: “Foi lindo, nunca vou esquecer, mas você não tem condições de levar à frente um namoro.”.
Que seriam “condições”? Maturidade? Dirigir sem Carteira de Habilitação? Não ter vindo de uma família abastada? Porte físico? Cabeça de menino? O fato é que, nem com todo o meu aparente esforço, nunca nos beijamos e você nunca me deixou claro o significado de “condições”.
Diante do fracasso, ao menos, pude construir alguns poemas. Não ficaram muito legais, mas eram os mais intensos que a puberdade poderia proporcionar. Ficava horas ouvindo aquele disco Bringing Down the Horse, do The Wallflowers, mentalizando seus cabelos repicados e aquela bochecha que nunca pude tocar.
Passei a odiá-la justamente quando vi em seus olhos sua vontade por seguir o coração, e deixar de lado o que suas amigas falariam daquela relação sem condições. Com suas vergonhas por namorar um carinha imaturo, o tempo se foi e vários canalhas fizeram-na mais rígida na arte de se relacionar.
Por tempos, não trocamos mais nenhuma palavra, apenas olhares. Os meus maldosos e os seus de indagação.
Não a odeio mais, não sei onde mora, não sei se é feliz, mas fomos história. É ainda lamento a mim que você não tenha me dado a chance de aprender, a chance de amadurecer, de ser mais afinado para repetir umas duzentas outras serenatas de amor, sem que ninguém absolutamente pudesse me impor qualquer tipo de regra.
DIOGO ARRAIS
@diogoarrais e @mesmapoesia

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01 de setembro, 2015

Memórias Adolescentes – Bando de Rock

Cabelo partido ao lado, camiseta do uniforme para dentro e a minha gélida entrada tímida, no 1º F, do antigo Segundo Grau, do Colégio Delta, do Setor Oeste. Ao lado da parede de tijolo à vista, muito magro, pude ainda sentir mais gelo ao ser questionado sobre minha presença. Meu sobrenome, Arrais, deu logo aberturas a infames trocadilhos por parte de Bruno e Igor. Este último, no recreio, disse que me quebraria como arroz (em meu sobrenome trocadilho) se soubesse que eu ouviria News Kids On The Block. Soltou um “aqui é rock, porra!” e acendeu, escondido, um cigarro de Bali – para delírio dos colegas dos outros primeiros anos.
Foi esse bom selvagem que, ao final da aula, esqueceu abaixo da carteira o cd laranja, Afrociberdelia, de um tal Chico Science. De prontidão, no outro dia devolvi e recebi o convite para sentar no fundão.
Pelo tímido medo pertencente a aluno novato, passei a sentar ali, fui obrigado a aprender contrabaixo (instrumento dos tímidos) e a odiar piamente qualquer Zezé ou Luciano.
Fui escolhido (sob duros julgamentos do 1º F) para integrar desafinada Banda DIB (com as iniciais de Diogo-Igor-Bruno. Ao menos no epíteto do conjunto, pude estar à frente deles e dizia isso orgulhosamente aos meus pais.
Tocamos, pela primeira vez, na aula de inglês – a faixa 4 do acústico do Nirvana e meus colegas de banda me abraçaram pela primeira vez e me convidaram para ir, com eles, ao show dos Raimundos, no clube Jaó.
Science e Kobain se foram, Igor casou-se com Claudia, Bruno foi ser delegado e pude aprender a me emocionar com os trocadilhos, pois sei que eles viveram, na verdade, me afinando.
DIOGO ARRAIS
@diogoarrais e @mesmapoesia

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01 de setembro, 2015

Um Acento e Tudo Muda

Terça-feira! Oba! Dia de mais um “post” sobre nossa Língua Portuguesa! Segue abaixo:

Um acento e tudo muda.
A secretária, na secretaria, disse a Antônio, seu chefe, que estava muito gripada.
– Não me medico! Vou sim ao médico. E já! – exclamou.
Ela, sábia, sabia dos riscos da famosa automedicação.
– Meu bebê, por exemplo, seu Antônio, só bebe o que é prescrito! Só come coco do bom; por isso, nunca tem cocô fedido.
Rapidamente, Raissa (que odiava ser chamada de Raíssa) ganhou a liberação para ir ao médico. Antes da saída, proclamou o chefe:
– Não se acostume! Neste mundo é preciso que se rale para sair da ralé, menina!
– Ah! Vou avisar também seus pais! Sabe como anda a violência neste país, né?
Ao chegar ao consultório, olhou para o forro do estabelecimento e lembrou a origem dos chatos espirros: o forró agarradinho à pele com o Édson (apelidado de Pelé).
– Seu nome? – perguntou o médico.
– Raissa!
– Raíssa, …
– Ops! É Raissa! Meu nome não tem acento, tem que pronunciar o ditongo aí. É “AI”: Raissa!
– Perdão, dona Raissa! Que houve?
– Ah! Aqui na Bahia (o senhor sabe, né?), em qualquer baia, a gente dança forró, pele com a pele. Pelé me convidou, trocamos umas palavrazinhas. De repente, eu disse que era secretária. Ele disse que eu era mesmo uma babá muito bonita. Troquei baba com ele, por longos minutos.
Para homenagear o momento, pedi à banda um fá maior e ele ficou fã.
A única coisa triste, doutor, é que, nesse ínterim, fiquei inteiramente gripada.
– Dona Raissa, venha cá! Não repare a minha cã: cabelo branco quando nasce é sempre aos montes. Vou lhe mostrar, por meio deste cartaz, nossa garganta.
– Está vendo lá? – questionou.
– Esta garganta? – perguntou a moça.
– Quando se está sob a friagem, sem a roupa de lã, lá fica inflamado, cheio de ira, como os fanáticos do Irã.
– Em meu último congresso em Roma, aprendi que romã é ótimo para tal incômodo laríngeo. Você se incomoda com essa fruta?
– Não me incomodo, doutor!
– Tome também estes comprimidos, duas vezes ao dia, e ficará curada.
Raissa, diante do tempo gasto na consulta, ficara apenas chateada por não conseguir comprar carne, tampouco quitar pontualmente a dívida, impressa no carnê.
Um acento e tudo muda.
Um abraço e até a próxima!

DIOGO ARRAIS
@diogoarrais e @mesmapoesia

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