15 de outubro, 2015

Somos a correnteza

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Sempre aficionado pelas lições femininas, pego-me atencioso a um diálogo com a poeta Lídia Martins. De repente, solto um “Sabe como eu projeto a mulher ideal?” e a resposta obtida é frase que repito até hoje: “Eu já não padeço de idealismos. Não quero ninguém refém de minhas projeções. Deixo que sejam o que são, e que me deixem ser o que são.”.
Como em um descampado, minha opinião rola mundo afora. Sinto-me cafona por querer demonstrar descrições exatas e projetistas. Grave defeito. Se tão estranho sou, por que desenhar o que não se desenha?
Amor, afinidade e emoção, na própria Língua, já são substantivos abstratos. Tais substantivos dependem de alguém que os execute. Abstratos não se desenham como a sala de estar, não se projetam como a casa no campo, não são triângulos-retângulos. Apenas são.
São, na sua infinita existência.
Na minha infantilidade, paro. Penso. Sou como criança atenta à lição. Repito. Solto aquele riso besta. Repito, como humano que atravessa a rua pela primeira vez e tenta aprender a olhar para os dois lados.
Como desenhar o som do trompete naquela canção? Partitura?
Talvez seja isto: quero projetar o amor para partitura. O xis da questão é que cada regente executa como quiser e, em muitos momentos, toca por intuição.
Para que partitura de algo único, porquanto nem com afinação necessariamente é preciso se preocupar?
Assim sendo, respondo à mensagem com um “É verdade!” e um riso incompleto, ciente do aprendizado.
Não satisfeita, a genial mulher (de inigualável coração) decide realmente mudar minha noite e finaliza: “Somos canteiros em obra, em um mundo no qual – para se relacionar – é preciso ter a casa pronta.”.
Solto um clichê “Relação é troca!”, emito o “Adeus!”, mas preciso ir ali debruçar-me num gole de uísque.
Ao céu noturno digo que sou muito infantil, mas aluno aplicado e ciente da tarefa de casa.

DIOGO ARRAIS
@mesmapoesia

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09 de outubro, 2015

No Amor Verdadeiro, a Distância é sempre Perto

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Nosso amor, mesmo a distância, é sempre perto. Perto porque não ficamos sofrendo com algumas “fronteiras”. A dois, dispusemos nossos aprendizados à ideia da relatividade.
Em dias de muito trabalho, nunca faltam os telefonemas (distantes daquelas instantâneas mensagens de cobrança). Nunca faltam as ligações de uma saudade que nos traz sempre o encontro.
Quando não é possível adquirir a passagem aérea, usamos o ônibus ou o carro. Mesmo quando tudo isso não é possível, ficamos bobos mandando aqueles e-mails repletos de bom humor e frases que nos casam, que nos colocam nos altares mais sinceros, nos botecos mais sujos, nos carnavais de rua.
Até hoje ainda me lembro do dia em que disse: “Estou triste! Serei provavelmente promovido e irei para fora do Brasil.” Sua resposta foi o que me viciou na nossa monogamia: “Que bom! Assim conheceremos paisagens incríveis e as dores da saudade serão um belo capítulo em nosso livro.”
Foi exatamente nessa hora que soltei um clichê “Eu te amo!” e gastei algumas economias para poder te abraçar, abraçar sua família, seus entes queridos.
O que nos construiu foi a maneira como relativizamos a distância, a maneira como respeitamos a construção de uma história, a maneira como soubemos dar toque de intensidade.
Ontem, no meu sonho, tocava piano – uma jazz bonito. Executava cada nota, no saguão do aeroporto de Congonhas, onde você sempre me buscou. Via os olhares das pessoas atônitas, via você e seus passos, ao meu encontro, em câmera lenta. De fato, você é minha sinfonia; meu processo criativo; minhas mais sacanas e respeitosas rimas.
Que, a cada dia mais, possamos ser a distância perto: respeitando o espaço alheio, não estendendo a territórios que não nos pertencem. Vivamos nessa contracorrente, pois foi assim que constituímos no mundo nosso lar.
Agora, tenho que ir, pois quero também fazer dos sonhos realidade: matriculei-me na aula de Piano para, num dia, executar as notas que me cantam: nosso amor.

DIOGO ARRAIS – @mesmapoesia e @diogoarrais

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06 de outubro, 2015

O Anacoluto

No estudo das figuras de linguagem, é muito comum a dúvida sobre o anacoluto. Etimologicamente, vem do grego “anakólouthos”, que significa “sem sequência, que não tem sequência com”.Costumo dizer que o anacoluto é uma quebra na construção da frase; uma mudança abrupta de estruturação do enunciado.

Na fala, por exemplo, é recurso geralmente muito deselegante. Personalidades políticas costumam proferir assim:

“O Brasil, ele é país que vai evoluir.”

“O Obama, tenho certeza que ele vai ajudar o Brasil.”

Já se pode até afirmar que o anacoluto – na fala – tornou-se vicioso, uma espécie de muleta. Para se evitar, vale sempre a lembrança da relação “sujeito-verbo-complemento” das orações de nossa Língua:

“O Brasil evoluirá.”

“Tenho certeza de que Obama ajudará o Brasil.”

No entanto, no texto escrito, o anacoluto transmite construções poéticas interessantes. Gonçalves Dias, em Obras Poéticas:

“O forte, o cobarde

Seus feitos inveja”

Caso pensássemos tais versos sem o anacoluto:

 “O cobarde inveja os feitos do forte.”

Além da construção poética, a ruptura presente no anacoluto serve para se reproduzir a fala de determinada personagem:

“Quero dizer que.. a minha vida, eu cuido dela!”

(Eu cuido da minha vida!)

Em termos mais simples, na fala e em textos considerados técnicos, o anacoluto não é um bom recurso.

DIOGO ARRAIS – @mesmapoesia e @diogoarrais

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