27 de novembro, 2015

FILOSOFIA DE PÁSSARO

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Se um dia tiver um amor verdadeiro, não o quero em prisão. Relação enjaulada é posse maldita; sentimento alheio não é “propriedade”. Corações são como pássaros: nasceram para voar.
Os crentes na propriedade alheia temem o “descumprimento” das leis. Na gaiola, o tédio e a vontade da transgressão serão maiores. Na gaiola, um pássaro pode morrer de solidão. Talvez depressão.
Os crentes na propriedade alheia temem traição. Simples: não admire pássaros – adquira um suvenir e nem sede ele sentirá. Não sentirá vontade, não pedirá nada, não mudará de cor, estará sempre lá quieto. Não esboçará reação.
Os aprisionadores pensam pelo outro. Bonito gesto, em partes. Não se dá alpiste ao pássaro que quer vinho. O ato de oferecimento é como o convite, ou seja, pode ser declinado.
Por que os aprisionadores não conseguem ficar presos?
Porque se sentir preso é cruel, triste, retentor de talentos. Sentir-se preso é uma torturante forma de desconfigurar uma alma, um corpo, uma história. Sentir-se preso é adolescer, estando adulto e maduro.
Quem ama, de fato, não teme. Quem ama entende que alguns seres morrerão tendo passado por inúmeras relações. Quem ama entende que outros seres morrerão tendo pouquíssimas relações. É aquela máxima de que o mundo se constrói nas diferenças.
O gostar de si é sentir-se pássaro, preparado para pousar no ninho que mais lhe convier. Para depois voar. Voltar ou não. Gostar de si é ir para o norte ou sul, sempre que lhe der “nas asas”.
Ademais, na história deste mundo, não há ser (satisfeito consigo) que tenha ficado só. O ser feliz, verdadeiro, claro em suas condutas, é – pois – admirado pelos voos e pelo bando.
Voar em grupo: meu desejo de pássaro!
Pássaros de fato são a sonoplastia da felicidade. Voam porque sabem amar.

DIOGO ARRAIS
@mesmapoesia

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26 de novembro, 2015

PARA OS INTENSOS NO AMOR

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Este papo de experimentar, viver aos poucos, conhecer para acontecer, não é para mim. Sou adepto às intensidades. Mergulho de uma vez, como se fosse a última.
Consciente do enorme risco que é ser intenso, não conseguiria viver sem o frio na barriga, sem os parágrafos tórridos de paixão.
Não conseguiria viver sem o olhar profundo, o abraço que aperta literalmente a pele, o suor que lacrimeja desejo, o poema declamado em grito, a ligação telefônica em gaguez de saudade.
Não conseguiria viver um amor sem loucuras (claro! sempre secretas e nossas!), sem as músicas cantadas ao vento, sem os banhos de chuva no Ibirapuera, sem a Praia do Espelho em Trancoso, sem a gentileza do abrir-fechar portas, do levar-trazer-receber xícaras e taças.
Não conseguiria viver sem desligar o despertador em pleno dia de semana, sem sentir nossas olheiras de cansaço, sem as brincadeiras sem nexo, sem as ironias maldosas e quentes, sem o beijar nariz. Sou intenso.
Os intensos, em muitos momentos, não são compreendidos, são tidos como loucos, como desrespeitosos, como ultra-avançados no tempo. Tempo – algo completamente relativo. Sim, sou louco e intenso.
Não seria melhor ser amado ou amar intensamente, mesmo que a relação dure pouco? Aliás, o que é durar pouco? Penso que uma relação deve durar o tempo suficiente para ser inesquecível. Sim, sou louco. E intenso.
A relação deve durar o tempo exato para se ter gravada cada risada, cada brincadeira, cada mania engraçada, cada beijo, cada toque. Durar o tempo exato para que prevaleçam os gestos do bem. Sim, sou louco e intenso.
Todos nós deixamos algo positivo em alguém, por maiores que tenham sido os conflitos. Vivemos para aprender e ensinar. Na intensidade, então, tudo é mais forte, menos calculado, com força, sem essa convenção de que é preciso ter tempo, dar um tempo, pensar em tempo para tudo, tempo, tempo, tempo… Sem essa. Sim, sou louco.

DIOGO ARRAIS
@mesmapoesia

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21 de novembro, 2015

Menina com Cheiro de Rio

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Menina com cheiro de rio; concerto em noite de árvore; ária de luz; cascata com água de poesia; aroma de terra; campo dos meus desejos de pássaro; azul-correnteza em mim.
Ver-te é correr por nossos campos, é ser verde a nascer, é colocar no abismo a inútil noção de abandono(a noção de não asa), é sentar frente ao poente lento, é sublimar teus raios.
Ver-te, mesmo sem nenhum tipo de contato, é o conceito do admirar. Desenho-te, com um grafite ingênuo. Escrevo-te, nos meus analfabetos sentidos. Canto-te, em um decassílabo em homenagem a suas ruas. Toco-te, com um violão de uma corda só. Rezo-te, suo-te, visto-te.
Ver-te é vento na minha face canina, é o acariciar do sopro de mar. É a montanha sorrindo à areia, é brisa ao encontro de cada piscar por ti. É o renascer articulações com vida de bicicleta, é silenciar buzinas. É imagens, retratos, poses, sorrisos. Sou página, tu és tinta.
Ver-te é não mais temer a cegueira, mas somente a falta da memória.
Ver-te é o sopro do existir, é lágrima intacta que não cai, é um reinventar de cores, seduz o rosa, acalenta o amarelo, acoberta os marrons sábios, emoldura brancos. Chama teus vermelhos, gentilmente.
Tu tens cheiro de rio, menina. Tens sim. Sabes que mergulho nu em suas correntezas. Sabes que medito tuas palavras-chaves, que escuto tuas curvas úmidas. Bebo teus lábios potáveis.
Teu cheiro de rio, menina, dá a meu coração poderes olfativos.

DIOGO ARRAIS – @mesmapoesia

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