15 de março, 2016

à moda antiga

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08 de março, 2016

MULHER – MINHA ALFABETIZADORA

MULHER, MINHA ALFABETIZADORA

Pelo amor pedagógico de Leonora, na turma de 1987, no Escola Os Pequeninos, na charmosa Goiânia, fui alfabetizado. Minha memória ainda se lacrimeja de emoção ao abraçar o momento em que letras, sílabas, gêneros, acentos gráficos e plurais deixaram de ser incoerentes rabiscos.
Tia Leonora (vocativo comum à época) professava à classe a importância de não somente escrever bem, mas também de valorizar a legibilidade da letra. Em expressão quase exata, atrás de óculos redondos, de bela pele negra, dizia: “Letra é a imagem de nossa escrita.”
O preenchimento da lousa de tia Leonora era regencial; de educadora que executava sinfonia usando o giz. Em contagiantes exemplos sobre caligrafia, seu traços naquelas maiúsculas e minúsculas eram também aula de Desenho e de incansável Geometria.
Giz, Jazz. Ela era Jazz como Nina Simone. Suava a alma para proclamar a independência das córneas de seus pupilos quando enxergassem grafados os termos “casa”, “escola”, “família”, “pais”, “vovó”, “vovô”. Brilhava os olhos para nos encantar sobre a força do Respeito.
Ao fim de cada manhã, verificava o asseio da sala, o linear das cadeiras (que chamávamos de carteiras escolares), abraçava um por um e florificava-nos com um bom-dia. Era um amor claro, também raro, que não nos deixava – por um instante – a saudade do lar. Acobertava-nos de Leitura e Educação.
Um mês antes da formatura da Alfabetização, tia Leonora ensaiou conosco a letra Aquarela, de Toquinho. Enquanto aqui redigia, pude sentir e reviver os olhares puros de meus coleguinhas de sala: felizes pelo saber ler; honrados por cantar (em afinado coral) em frente às nossas famílias.
No momento em que cantávamos com os diplomas nas mãos, tia Leonora chorava em câmera lenta; suas lágrimas eram como pássaros indo ao encontro do infinito.
É por ela que ainda hoje uso o lápis de madeira. É por ela que, às vezes, sorrio para o apontador e sinto poesia. É por ela que respeito cada letra como um ente querido. Essa mulher ensinou-me a amar nossa Língua, a Escola, a Ortografia.
Quando é chegado o 8 de março, tia Leonora, lembro sua força no meu existir. Mais que frases, alfabetizou-me sentimentos.
Ajoelhado sobre pétalas sinceras, somente posso exclamar: Mulher, obrigado por existir!

Diogo Arrais
INSTA: @diogoarrais

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