31 de maio, 2016

DESPEDIDA

É hora de ir embora. É hora de esvaziar os guarda-roupas, recolher livros e discos, encaixotar taças e ternos, fechar as janelas e os registros. É hora de ir.

É hora de revisitar as últimas madrugadas do lugar em que se viveu, rir do trânsito caótico, pedir já com saudade a coxinha do BH, o café do Chibanas, abraçar a dona Chiquinha e ficar longos segundos sentado sobre o banco da capelinha da rua da Glória.

Na cruel despedida, dói entender o olhar do amigo que, de longe, abraça-o com sobrancelhas que choram.

No momento de ir, restam – outrossim – retratos mentais: de vinhos poéticos, de papos amenos, de tardes e noites de esperança e retribuição. É da miserável rotina de que sempre teremos saudade.

E indo, de fato, choramos, rimos dos inofensivos apelidos, dos erros bobos, dos acertos, do que foi despretensioso, do que foi sonho, do fim do jogo.

Na despedida, até o que era ruim tem o seu lugar. No entanto, o que era bom estará sempre conosco nos nossos melhores aposentos, que jamais se empoeiram. Não estará, será. Do verbo eterno ser.

É! Os minutos passam, é preciso tirar os eletrônicos da tomada. O caminhão já está lá embaixo à espera da mudança. A mala, que vai conosco no carro, com roupa para poucos dias, tem zíper com barulho de adeus.

Quando é chegado o tempo, os olhos criam asas; o coração, pernas. Tudo sabe que é hora de partir.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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27 de maio, 2016

Uma Força Verbal – o Subjuntivo

            Que as mais macias palavras escorram por nossas almas. Que campos de lírios, sorridentes, esperem-nos, ao lado da cachoeira de nossos quintais. Que badalares de sinos cochichem segredos afinados. Que finas penas registrem nossas frases com gosto de chuva. Que cigarras declamem sonetos bilíngues, à meia-noite de nossas estações.

            Desejos de amor são como os pianos, sonantes a quem compreende partituras.

            Que as cabeleiras voem além dos penhascos da vida. Que as xícaras coreografem valsas com taças, entrelaçando cheiros de saudade. Que os subjuntivos sejam conjugados em suas pernas, suaves nos andares às nossas avenidas. Que os olhares apalpem-nos sob brancos lençóis de paz. Que pores do sol ressignifiquem apelidos, em noitinhas de poesia. Que garçons tremulem diante de nossas mãos, que suam reciprocidade. Corramos agora pelo restaurante sentimental!

            Desejos de amor são como as árvores, incansáveis formas frutíferas.

            Que os pincéis chorem telas expressionistas. Que navios assobiem lembranças da paisagem de seu corpo. Que o leste-oeste abrace o norte-sul. Que a sede de sílabas filtradas hidratem-nos de ventos solidários. Que a amizade sustente palcos habitados de intimidade. Que as rádios sintonizem aqueles jazzes compostos por sabiás que jamais conheceram gaiola.

            Desejos de amor são como o azul, travesseiro tonante de qualquer poeta.

                                                                                    DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

 

 

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