06 de julho, 2016

PROSOPOPEIA

            A voz de Sarah Vaughan está no volume cinco da vitrola. Os lençóis assobiam em disparada nesse jazz inebriante. Ouvindo os sons alheios, o edredom sente inveja e dispara uma serenata repleta de macios calorosos. É o momento sinfônico de nossas vidas – anuncia o luar (que ri).

            Paredes, a esta hora, são tão sinceras como cada círculo do vinil que transa na velha vitrola.

            Braços correm por cada esquina, como se fosse a última vez que se exercitassem. Unhas descem ladeiras, como se fosse a última vez que passeassem na Terra.

            Nessa partitura, discursam os pelos, uivam os lábios, desenham as pernas, compõem os narizes. São tantos pares plurais que as sintaxes atacam até as orações mais honestas. Tudo isso para registrar: é o encontro!

            Roçam, alimentam, acalentam, desenham, silenciam, versam, disparam. Deram. Deram. Deram as horas, deram os meses, deram as estações, deram os pores do sol, deram as vezes, deram as súplicas, deram os desconfortos dos mais simples badalares noturnos.

            É a bendita prosopopeia do encontro – anunciam as taças úmidas pelo intenso brindar.

            Inventando termos, a bebida apenas pede para não acabar. Ajoelha, toca as nossas portas, envia postais. Faz promessa: “Façam-me vida até se extinguir o amor!”

            Gotejam as fechaduras.

            DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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