26 de outubro, 2016

Estamos nos tornando um Instagram?

_92015836_65ea63c9-cb80-4021-9da7-adad0c23ece1

Hoje é o tempo em que nós lutamos pela independência. Independentes, com grana no bolso e bom trabalho, achamo-nos vitoriosos por não dar satisfação a ninguém.
Influenciados pela geração de nossos pais, crescemos com a natural preocupação de dizer ao outro: “Onde você estava?”, “Quem telefonou para você?”, “Fiquei preocupado!”, “Quem é essa, papai?”.
E tudo vai por água abaixo no Amor…porque não suportamos que aquela pessoa (tão recente em nossas vidas) cobre. De cobrança, só é aceitável a fatura do cartão de crédito com a compra da viagem para Vegas.
A solidão é enganada pela dose vestida de Armani e energético. A liberdade é convidada de um luxuoso camarote, e as risadas disfarçam o pedido de nossos peitos – amar alguém.
Em um cotidiano de 8-80, ficou menos incômodo não falar o nome, não escancarar planos para o futuro; tornou-se perda de tempo convidar. Receber visitas parece ser algo invasivo. Compartilhar parece ter ficado ultrapassado, já que fomos vítimas do egoísmo sangrento das metrópoles. Por que se dar ao luxo de telefonar, se existe WhatsApp?
Por isso, a cada dia mais, as festas e as academias vem se enchendo de gente de muita garra profissional, sorrisos clareados a câmeras de celular. Esses lugares estão cheios de pessoas que se sentem ofendidas por não estarem também rodeadas de gente tão bonita e com igual “sucesso”. É tudo tão formatado que os peitos são iguais, as coxas são iguais, as músicas são iguais e o mundo ideal um só: um confortável apartamento para se viver sem chateação alguma. Morar em um condomínio, sem saber quem é o vizinho, é um luxo danado.
Ironicamente, ao passarmos pelo Facebook ou Instagram, ainda nos emocionamos com nossa essência humana: o amor puro, sincero e compartilhado. Queremos viver uma grande história, mas nossas canetas são muito preciosas para escrever tudo em conjunto.

DIOGO ARRAIS
www.youtube.com/mesmapoesia

Compartilhe este texto
0 Comentários
26 de outubro, 2016

os apps do amor

5omqu6k6rftvbyn4c33lu9qiy

Vivemos uma era em que, com alguns cliques, podemos conhecer o amor de nossas vidas. A tecnologia interfere até na maneira como encontramos gente. O mais incrível – selecionar idade, sexo, localidade, gostos. Foi assim que conheci Gizele.
De cara, fiz a pergunta a ela de que mais gosto:
– O que te faz feliz?
A cada resposta, o meu brilho no olho, porque ela admirava a maneira poética da vida; porque ela admirava gestos de gentileza; porque ela aplaudia pores do sol como quem agradece o artista.
Quem é intenso digita como se ali fossem os últimos minutos da vida. Para glorificar mais ainda aquele virtual diálogo, Gizele dizia – com nobres recheios de gratidão – sobre a família. Ela falava do pai cantando adoração. As mensagens sobre a saudade de casa beijavam o caráter aprendido.
“Que musa!” – eu pensava. Por onde estivera uma mulher tão rara assim? Melhor nem pensar, mas sim curtir cada segundo daquele papo inebriante. Mesmo porque, em tempos de internet, a expectativa não tem que existir. É o presente e o presente.
Voltando às intensidades, descamisei a sinceridade e dei maior atenção ao que ela pensava sobre o percurso da vida. Quem não se fascina por alguém que valoriza abraço, cafuné e viagens? Foi aí que cumprimentei o aplicativo que me trouxera um ser tão sensível. De uma voz doce, que arrepiava.
Tão magnetizante papo há de me fazer concordar com os mais racionais: isso é quase impossível, mas ainda bem que a Língua registra os “quases”. Porque quase impossível carrega a possibilidade de ser feliz.
Marcamos um bom vinho, e o sabor foi ainda melhor. As taças estavam radiantes e o garçom meio bobo diante de duas pessoas que se entreolhavam como se brincassem de quem pisca por último.
A maior resposta para um momento mágico é quando o tempo se sente desprezado; quando o relógio deixa de ser importante; quando as mesas do restaurante sentem vontade de dançar valsa.
Os aplicativos do amor exigem talvez um cuidado maior com quem se conversa, mas neles é muito possível encontrar alguém que vai valorizar o toque de suas mãos, o olho no olho, a alma na alma, a pele na química da entrega. O cuidado recíproco.
Porque, em um mundo de tamanha solidão e descrédito, buscar a felicidade onde quer que seja é sinal de nossa boa intenção. E bem-intencionados (destituídos de medo do novo) acharão o Bem – na internet ou fora dela.

DIOGO ARRAIS
www.youtube.com/mesmapoesia

Compartilhe este texto
1 Comentário
19 de outubro, 2016

SOBRE TER UM BLOG E NÃO SER LIDO

fabiano-costas-e-teatro-vazio-capa

Escrever na internet é como ser músico de churrascaria. As pessoas sabem de seu blog, veem de relance sua palavra, mas quase ninguém a observa, muito menos comenta.
Escrever na internet é como aqueles pastores na praça da Sé, os quais são alvo de risada e de um preconceito absurdo. Sinto-me exatamente assim: sob um sol escaldante e suor intenso, divulgando a palavra sanguinária do átrio.
Escrever na internet é como vender artesanato pelos botecos, e sentir o olhar satírico e bêberdo do senhor de bigode:

– Fala, maluco! Cê é hippie, mermão? Tá vendendo esses “bagulho” pra quê?

Viciado, o escritor até tenta largar sílabas, versos e frases, mas isso depende de um trabalho árduo de recuperação. Temente a recaídas, ele não largará o hábito que o acompanha desde o “dia um” neste mundo.
Escritor tem a mania de ler e acreditar. Acredita que, com a rede mundial de computadores, poderá enfim fazer dos manuscritos vida digna. Trata a Mídia e o Povo de selecionarem alguns raros cidadãos e vociferarem:

– Escrevam, porque serão lidos e publicados! Nós amamos a Poesia!

Mentira. Tudo é como antes, como na época de Calvino. Justiça seja feita, atentando-se à diferença entre máquina de escrever e a tela 4k, entre o caderno e o tablet.
Mais democrático talvez fosse na época do jornal impresso – lá havia a certeza de cidadãos ávidos por uma sintaxe inquietante. Cronistas antigos, embora nem conhecidos fossem, ganhavam a boca de Nélson na discussão sobre o romantismo do Fla-Flu, ou na declaração sobre Capitu.
O verdadeiro escritor batalha por interação, quer ler a crítica, quer responder à pergunta, mesmo que isso custe a solidão de passar horas em frente a parágrafos. Quer uma chance, tão rara como o prêmio da Loteria Federal.
Por essas e outras, é que o escritor usa pseudônimos e desativa contas digitais. Muitos jogam às traças escritos sinceros e geniais: na certeza de que serão consumidos ao menos pelos insetos.
E nem isso conseguirá o escritor na internet, já que todo o conteúdo está no vácuo de redes sociais.

DIOGO ARRAIS
www.youtube.com/mesmapoesia

Compartilhe este texto
7 Comentários