12 de novembro, 2016

MOTEL

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Os hotéis estão abarrotados de casais felizes
De Auroras e Adolfos que celebram núpcias
Tiram retratos
Dançam valsa
Fazem poses com suas brilhosas alianças
Recebem ligações telefônicas com desejos longínquos

Os hotéis são sempre o convidado mais importante do matrimônio
São o que os motéis jamais serão
Hotéis são finos na recepção e em quartos
Orgulham-se ao som do piano bar
Escorrem prazer em lençóis com pétalas rosadas de promessas
Cheiram glamour

Em hotel, sonham
Em motel, somam

Hotéis têm postura
Motéis não precisam dela

Na rede hoteleira, ninguém acha o gemido
Na moteleira, os gritos abafam quaisquer campainhas

Não há curso para camareira de motel
Ninguém lá vê currículo
Não se importam com a boa educação
Não se sabe o nome
Nem sobrenome
Ninguém tem nada a ver com a história
Muito menos com o carro
Alguns não têm estacionamento
Manobristas não arrumam trabalho ali
A recepção só o fiscal de postura conhece
Aceitam dinheiro, cheque, cartão, nudes, vale-transporte, menos a imprensa

E digo: já trabalhei em lugares hotel, e outros Motel

Prega a romântica terapeuta
Tem casamento amaldiçoado quem ao motel vai na lua de mel

Hotel é família real
Motel marginal

DIOGO ARRAIS
www.mesmapoesia.com.br

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12 de novembro, 2016

TRÁS-OS-MONTES

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Trás-os-montes
não sei o que significa
vivo ignóbil
vil
abjeto
mal ouço burburinho

deveria ser marca
quiçá cidade
rótulo de vinho

pouco sei de palavra
cria do diabo hífen
não entendo acordes
tampouco rimo

não viajo
beber é pecado
durmo sozinho

Nunca fui a Portugal
li poucos livros
sobre romances sempre estou indeciso
invejo passarinho

Não sei quem é Pessoa
já quis desvendar alguns versos
“no entanto” é expressão vazia
não posso
sou muito menino

tudo por causa de Trás-os-montes
por não ter ouvido explanações
por não conhecer cidades
por não ter arranhado cores
por não querer carinho

DIOGO ARRAIS
www.mesmapoesia.com.br

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10 de novembro, 2016

CAMA É SAGRADO

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Sobre a cama, dois corpos convidam suas almas a um passeio pelo paraíso. Nem sempre o convite é aceito, porque é preciso que ela (a alma) esteja confortável; ela precisa se sentir privilegiada.
A alma está sempre nua. Não enxerga imoralidade e, ao menor sinal de medo, não comparece à cama; pedirá para que o corpo sinta mais intimidade com a presença alheia.
Afinal de contas, ir para a cama é simples, o mundo inteiro sabe. A carne é ciente de qual caminho percorrer, guiando-se entre toques e palavras ardentes.
Com a alma, é diferente, pois somente ela sabe como chegar ao destino mais procurado por casais – o amor puro, desnudo de fórmulas, sereno (e ao mesmo tempo intenso), energético e vidente de emoção.
O amor com alma é como correr nas nuvens, com ventos puros, saboreando o infinito sentimental. Sentir sem alma é a única coisa impossível na vida.
Um ser humano, com a vida média de 70 anos, conhecerá uma ou outra pessoa, no máximo, íntima de alma. Aos milhares, conhecerá gente semelhante em gostos físicos, mas em alma…raridade.
Quem já fez amor além dos corpos gozou sem forçar, declarou-se sem nem palavra usar, confessou sem se preocupar, driblou o tempo porque a questão não é contabilizar.
Quando um ato é além de corpos, o olho não quer abrir, e quando abre é como viajante feliz ao sorrir para o céu diante da janelinha do avião, com aquela sensação de “foi bom demais ter ido lá!”.
Quem dera se os apaixonados pudessem fotografar a paisagem que eles veem quando entrelaçam suas energias… quem dera. Paisagem do ápice, do máximo, do mínimo, da troca, do azul, do instante, da água, do conforto, do simples, da música, do coração.
Por isso, no amor, o longo abraço de olhos fechados é a pergunta: “Vamos chamar nossas almas para uma viagem ao paraíso?”

DIOGO ARRAIS
www.youtube.com/mesmapoesia

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