09 de janeiro, 2017

Você me Entende?

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Não há nada mais gratificante no mundo que a compreensão. Compreendidos, passamos a ter, frente a nossas ações, nova ótica. Compreendidos, criamos maior coragem para verbalizar segredos.
A faculdade de perceber cria novos amigos. Lembro-me, certa feita, indignado na fila de embarque, quando uma moça perguntou:

– Aconteceu algo?

Não sei por que, mas tive vontade de ser muito sincero. Tratei de dizer logo o “você talvez não entenderá, mas …” Ao fim do relato, ela disse aquele “Eu te entendo, teria feito até pior”.
Conforto, desafogo, refrigério, sorriso. Ver que o outro entende é um abraço hollywoodiano. Mais seguro, fiz-lhe obviamente a pergunta:

– O que você teria feito em meu lugar?

Rápida, vi aquele brilhar dos olhos, num “já que você foi sincero, serei também”:

– Não teria mandado mensagem alguma, não teria tido o cuidado de dialogar, simplesmente teria sumido. Talvez até mandasse ir para alguns lugares…

Quando conhecemos alguém semelhante parece que batalhamos juntos. Parece ser alguém que tenha atravessado o mesmo campo minado; alguém que tenha estado também na dura trincheira ao combate; é definitivamente alguém que conhece quem e quais são os reais inimigos.
Quem nos entende nos elogia na hora certa, reprime-nos no evento adequado. Procura-nos, pois sabe que será procurado.
No diálogo entre quem se entende, a palavra nem sempre é necessária; basta um olhar ou um gesto; a frase já é lida por aquele levantar de sobrancelhas típico.
Há algo mais gratificante? Desconheço.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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09 de janeiro, 2017

Sobre Ouvir o Peito

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Dia desses, perguntei ao coração o que mais válido ele via nesses trinta e poucos anos de vida. Disse, claro, o mais histórico sentimento, o amor. Ele se alimenta disso, todos os dias, para pulsar.
No entanto, disse também que o mais válido sentimento é a dor. Eu, assustado, pedi um minuto, puxei uma cadeira, abri uma taça de vinho e o velho peito me contou assim:
Na dor, fui descobrindo quão puro você agia, liberando sorrisos gratuitos, palavras de amor, verdades rasgadas, e – foi assim – que me veio a primeira dor. Aprendemos e choramos juntos.
Na dor, também me chateei muito quando eu queria uma história mais profunda, e você já ressabiado nem notou o olhar maravilhoso que o esperava. Paciência! A gente também vê quão dramático é ser coração. Vê até demais.
Na dor, também sei que te chateei muito quando você em mim acreditou e fez tudo muito certo, usou o meu romantismo, declarou-se, enviou mensagens belíssimas, ajoelhou-se diante do sentimento, abraçou, doou tempo, mas… sei que o decepcionei, porque você me comprovou que não era.
Amigo, lembro o dia em que você tomou banho cantarolando músicas num inglês engraçado, arrumou a bagagem, redigiu um bilhete com a declaração mais perfumada, partiu a um passeio daqueles, mas… quase tudo foi um fracasso para suas expectativas (e até sinto que hoje você quase não espera nada de ninguém).
Demos risadas ali. Senti-me muito bem e respondi:
Caríssimo peito, com o passar dos anos, aprendi que justificativa é alívio besta. Esse lance de ficar justificando os episódios é muito subjetivo, uma vez que é minha visão (e apenas a minha) sobre uma história.
O percurso da vida tem, inevitavelmente, muito amor. Basta darmos chance a querer vê-lo, porque talvez esteja num ponto de ônibus enquanto espero a luz verde do semáforo.
Amigo, as dores norteiam a existência.
Obrigado por este diálogo de paz!

DIOGO ARRAIS – youtube.com/mesmapoesia

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07 de janeiro, 2017

Peço-lhe Licença

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Peço-lhe licença para cravar em seu peito: território de paz. É ali onde me abrigo, onde fujo de todas as confusões, onde rio contando lembranças, onde retiro palavras para futuros poemas, onde fotografo carícias, onde me emociono, onde adormeço sem medo, onde quero estar todas as noites.
Peço-lhe licença para cravar em seus olhos: território de luz. É ali onde me apaixono, onde flerto suas loucuras, onde dialogo com intensidade, onde reconstruo vários “eu te amo!”, onde vejo o que não via, porque quando não tinha sua visão tudo era míope.
Peço-lhe licença para cravar em sua boca: território de prazer. É ali onde me alimento, onde passeio lentamente sem me preocupar com as horas, onde estudo nosso idioma, onde exercito a ardência da entrega, onde divago, onde canto bossa-nova e carnaval.
Peço-lhe licença para cravar em suas mãos: território de felicidade. É ali onde cultivo amizade, onde minhas raízes crescem, onde floresce minha admiração pelo seu silêncio, onde entrelaço devoção, onde o simples derrama motivos sentimentais, onde a vida vive arejada, onde não se sente cobrança.
Peço-lhe licença para cravar em suas costas, enquanto você ainda dorme: se hoje posso mais, é porque você me concedeu o dom de entender o Amor.

DiogoArrais – youtube.com/mesmapoesia

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