06 de janeiro, 2017

UM MAL-ENTENDIDO

Pic shows: Abandoned vehicles in the ‘car graveyard’. Hundreds of vehicles have been wasting away in a parking lot in China where the cars are now overgrown with weeds and trees. Hidden in the undergrowth are also expensive luxury vehicles such as Mercedes-Benzes, Land Rovers, and Bentleys – two of which are thought to be 3 million RMB (316,890 GBP) each. According to reports from the lot in Chengdu, capital of south-west China’s Sichuan Province, the 200 or so cars have been abandoned there for years, and many are already old enough to be scrapped Local authorities said that many of the expensive vehicles have been kept in the lot because they were involved in complicated criminal cases currently under investigation. Due to the complex nature of the cases, which involve a number of government departments, the cars have been essentially impounded in the lot and have been allowed to disappear amongst the foliage. Amongst the Audis and Mercedes-Benzes are also motorcycles or much older and cheaper vehicles which are also due to be scrapped. But authorities have yet to handle the sedans in what has now been described as a "car graveyard". Several similar cars seized by authorities in the past had been auctioned off last year, reports said, after local courts in Chengdu were given permission to sell cars from solved cases to the public. But the majority of the vehicles are still wasting away as different government departments work together to resolve the criminal cases. (ends)

Luana nunca disfarçara sua paixão por André. Não era por menos, pois ele sempre fizera do namoro uma história para não ter fim. No início do noivado, Luana foi informada de que André mantinha relações com a secretária da empresa, a Linx Construtora . O término foi imediato.
Luana, desequilibrada com o fato, só queria saber de chorar. Isolou-se de tudo e todos, e teve a ideia de se mudar para Londres. Desenvolveu cacoetes, falava sozinha e estabeleceu uma promessa a si: “Homem nunca mais!”.
Ninguém (muito menos a família daquela mulher idônea, formosa, pianista avançada, fluente em três idiomas e pós-graduada em Direito Penal) entendia aquela maluquice de ela passar a viver em terra estrangeira, sobrevivendo como garçonete em um pub, próximo à estação Holborn.
Passados alguns meses, Luana parecia outra – acordava cedo, praticava ioga, lia a bíblia e embarcava sorridente no metrô. Nos e-mails à família, relatava o encontro da liberdade, a sapiência em entender a dor, a beleza da vida, o valor das coisas simples. Em uma das respostas a essas mensagens, sua mãe, dona Alzira, foi categórica:

“Luana, minha querida filha, André veio aqui. Está supermagro, pálido como nunca o vi, depressivo e distante dos negócios. Meu coração materno se partiu, quando ele pediu para entrar aqui em casa. Não houve como negar. Ouvi-o por mais de duas horas, e nem o drinque preferido ele quis. Chorava em soluços e…”

Súbito, Luana apagou o e-mail. Não leu até o fim. Fechou os olhos, ajoelhou-se e correu a abrir um vinho francês. Bebeu muito. Quanto mais a bebida fazia efeito, mais se lembrava do momento romântico em que André lançou a seu olhar as alianças de noivado (os dois dançando um jazz de Charles Mingus).
Já alcoolizada, apagou-se ali mesmo no pequeno sofá.
No outro dia, Luana foi surpreendida pelo relógio. Já estava atrasada mais de 30 minutos para o trabalho, justamente na terra em que os ponteiros nunca são desobedecidos. Envergonhada, não mais apareceu no trabalho, tampouco percorreu as ruas próximas.
Pensativa, ela decidiu mandar um e-mail à mãe:

“Querida mãezinha, meu coração está muito abalado com as últimas notícias de André. Não consigo deixar de ter consideração pelo homem que tanto bem fez a mim e à nossa família. Preciso voltar a São Paulo, mas não tenho recursos financeiros.”

A família, em festa, tratou logo de comprar a passagem na melhor classe aérea, voo direto, para que a filha amada chegasse descansada e repleta de perdão.
Felicíssima, Dona Alzira foi ao apartamento de André. O que ela lá encontrou foi uma cena dolorosa. Nem o porteiro, nem o zelador sabiam do paradeiro da carismática figura de André.
Desesperada, Dona Alzira ligou para o sobrinho delegado.

– Marcelo, é a tia Alzira! Tudo bem? Por um acaso, você não …

Dr. Marcelo, como era conhecido no distrito, interrompeu:

– Tia, seja forte: André foi encontrado morto nas proximidades de São Paulo. Deixou um bilhete muito bonito, em que relatava com veemência a fidelidade pela prima Luana.

Alzira berrou:
– Não me diga uma coisa dessas! Meu Deus, eu sempre soube. Todos os invejosos sempre quiseram acabar com o casamento da minha filha. Isso não… isso não, meu Deus!

Enlutada, não havia outro jeito – a família precisava buscar Luana no aeroporto. Ao abrir as portas do desembarque, a filha formosa e com o coração jogou as malas ao chão, a fim de dar aquele abraço televisivo.
Seu pai, de mãos dadas à mãe, manteve-se trêmulo. Apenas mostrou a primeira página do jornal:

CEO DA LINX CONSTRUTORA É ENCONTRADO MORTO ÀS MARGENS DA DUTRA

O que se ouviu foi o grito mais desconsolador na história do Terminal Internacional de Guarulhos.

DIOGO ARRAIS
youtube.com/mesmapoesia

Compartilhe este texto
0 Comentários
06 de janeiro, 2017

um estado chamado eu

as-mascaras-das-pessoas

Ninguém pode deduzir o estado alheio. Sem que exista a confissão, não é possível saber ao certo como uma alma está.
Se o sorriso está solto, pode ser apenas uma piada incrível, ou a pose para uma foto histórica.
Se a pessoa parece abatida, pode ser o desgaste dos últimos meses, ou um longo voo Tóquio-São Paulo.
Quem se cala pode ter sentido vontade de poupar a voz. Pode ter sofrido chateação, ou seja, está tomando saudáveis lições com o vazio belo do “não barulho”.
Se parece doente, pode ser uma virose chata que insiste em impedir a essência de saúde do cidadão. Pode – também – estar num pós-operatório daqueles. Pode ser nada.
Se está branca demais, não gosta de sol. Se está superbronzeada, tem a dádiva (ou não) de uma vida praiana, trabalhando às vezes mais que a média populacional.
Se não tem trabalho, enjoou de trabalhar, quer dar um tempo, ou se aposentar de vez. Se trabalha demais, pode ser uma fuga, ou a missão de mudar milhares de vidas de outros trabalhadores numa empresa.
Se parece rica, está apenas gastando com intensidade o que lhe resta na conta bancária. Se pobre, está guardando segredo sobre uma renda formidável a que chegou.
Se sensível demais, homo, artista, chata, em luto, ou nada disso. Se bronca, mal-educada, deselegante, é roqueira, faz crossfit, ou não se comunica por palavras.
Se fala de sexo, é tarada, compulsiva. Se não fala, é frígida ou ainda lhe falta uma massagem tântrica.
Se está solteira, colheu a solteirice, optou por isso, ou está numa tristeza profunda. Se está casada, pode querer a monogamia eterna. Pode pensar em se separar amanhã.
Se engravidou, pode não precisar de pensão alguma, muito menos de marido, ou ser exatamente o oposto.
Se isola de tudo, virou monge, surtou, evoluiu, está num retiro, ou se rebelou.
Apenas o “eu” para dizer ao certo o que se passa. Ele e mais nada.

DiogoArrais – youtube.com/mesmapoesia

Compartilhe este texto
0 Comentários
05 de janeiro, 2017

OK – Cafonice Comunicativa

tudo-mais-570733d433af6

“OK!” é uma palavra cretina. É feia à beça, cafona ao extremo. Sua frieza e seu comodismo vêm há muito tempo.
Imagino um sujeito que redige ao chefe:

– Bom-dia, senhor Gomes! Recebi o e-mail e já convoquei todos os colaboradores do Setor BETA, para uma nova reunião.

Ansioso por demonstrar um bom trabalho, recebe como resposta:

– OK!

Não há como negar que o subordinado se sentirá instantaneamente mal. Vida que segue, e que ele nem pense em reclamar disso.
No amor, então, o “OK!” é como chamar briga. É ríspido, insensível demais (independentemente da ocasião e da hora):

– Passei a tarde inteira lendo mensagens que me fazem recordar o nosso amor. Que assim seja sempre, no calor de nossos corpos e almas. Amo você!

O rei ou a rainha das desculpas tecnológicas da rapidez louca do cotidiano envia como r-e-s-p-o-s-t-a:

– OK!

Com isso, é garantida uma rápida e revoltante ligação telefônica, com um bom puxão de orelha diante do ato mal-educado. A questão não é nem a reciprocidade sentimental, mas a falta de educação, como a do sujeito que insiste em não responder o cumprimento de um vizinho no elevador.
No meio familiar, pode ser ainda mais grave. Isso levaria a um castigo doloroso, e uma mãe poderá deixar de conversar com o filho pelas próximas décadas:

– Meu filho, que Deus ilumine seus passos em mais esta viagem de férias! Bom descanso! Mamãe ama infinito você, criaturinha!

– OK, mãe!

Que dor é a abominável mensagem relativa, de maneira irônica, a “Tudo bem!” Por isso, não a uso, não gosto de recebê-la e rezo para que as próximas gerações esqueçam-na bem longe.

DiogoArrais – youtube.com/mesmapoesia

Compartilhe este texto
0 Comentários