30 de novembro, 2017

o primeiro homem a vencer o vazio

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nunca se vá, nunca se despeça, mas se chegar a hora, saia de fininho, apague a luz, mas à francesa, não me deixe vê-la, não me faça sofrer, não quero abraços finais, não quero bilhetes tórridos de dor, não quero ter que ficar a observar o horizonte e pensar na vida pós-ida sua, porque qualquer um sabe que despedidas são sanguinárias, são navalhas afiadas diante do coração a pulsar, são como crianças solitárias esquecidas na escola após o fim da aula, são como cachorros encoleirados na porta do supermercado, são paisagens cinzentas que clamam pelo sol, é como sentir-se sozinho na festa de ano-novo, é querer e não poder, é sofrer em reticências que não acabam, é trabalhar sem nunca ter férias, é ver o mar e não poder se banhar, é ter a palavra de amor sem ninguém a ouvi-la, é – e você sabe – um sofrimento desgraçado o tal do desprender-se do laço sentimental, não nascemos para isso, não fomos concebidos para estar longe de ninguém, nunca houve na história desta carne de duas patas mamíferas uma sociedade de alguém só, nunca houve na literatura o registro de um romance assexuado, monossilábico, solitário, em monólogo, não, nunca houve, e é melhor mesmo que não haja, pois não podemos alimentar a canalhice dos que se vangloriam por não ter de dividir absolutamente nada com ninguém, os famosos egoístas indivisíveis, de mármore na poesia semiexistente, e também por isso eu imploro mais uma vez não ter que dar tchau! para justamente não sentir o oposto do mundo, que é ter que se virar tão-somente sozinho, é melhor que eu me engane e toque a campainha, abrace o vento e o travesseiro, tendo a imaginação de cada curva sua, de cada gesto de carinho, de seu amor eterno, pois já disse a todos os meus amigos que serei o primeiro homem a vencer o vazio da solidão.

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27 de novembro, 2017

Almas Consteladas

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De mãos dadas, jardinamos um mundo nosso floreado pelo bem; de mãos dadas, cultivamos estrelas em casa; antes de dormir, admiramos estes dois corações constelados. De mãos dadas, somos simples, práticos amantes do vento, da sombra, da água pura, da relva, da declaração límpida.
Gostamos um do outro assim; fazemos uma fogueira no fundo da modesta casa de campo; recitamos longos poemas russos, bebemos rimas profundas, interpretamos alguns amores do escritor; caímos em gargalhadas causadas por briguinhas inúteis; vemos quão bom é saber da vida passageira, dos instantes insanos, rápidos como nunca, nem o relógio é capaz de voltar. Ficamos velhos respeitosos de nossas sementes fiéis, sempre férteis do recíproco; não criamos expectativas tolas, uma vez que tudo sairá como sempre amamos, e nunca planejamos. Procuramos dar valor ao momento. Brincamos de respirar juntos; de contar quem come mais jabuticaba; gritamos pelo nome do nosso cão Pastel; acariciamos o Mingau, aquele pinscher danado que late um ódio falso vestido de amor, porque ele é só amor e proteção; olhamos nas longes paragens duas capivaras folgadas; jogamos pedrinhas na represa para ver se elas saltitam; fotografamos, mas não compartilhamos nossos clichês de amor; pedimos conselhos ao pônei dado pelo meu avô; assamos ovos e queimamos a mão; vamos logo gritando “uai! você não espera!”; buscamos a coberta antiga com desenhos do He-Man; cobrimos os corpos para um longo beijo de estalar até o monte Fuji; ficamos horas e horas dizendo elogios e relembrando o cinema da semana passada; pedimos proteção; talvez passamos o ano-novo em Maraú, mas podemos mesmo ficar em São Paulo; meditamos, pensamos, perdoamos, aprendemos; jogamos cartas; volta e meia, sai um conselho maroto, como aquele “você devia mesmo é…; pregamos quadros abstratos; emudecemos tevês; abrimos revistas que lembram Goiânia nos anos 80; pretendemos viajar ao Egito; falamos da nossa oitava série; arrependemo-nos de não ter nos conhecido antes; logo voltamos atrás e agradecemos por tudo no exato tempo; recriamos frases; revisamos a vida; aplaudimos o pôr do sol; você sempre chora; eu passo a mão no seu ombro; conheço cada parte sua; você, as minhas; não há maldade, somos cúmplices; como é isso bom – de mãos dadas, jardinamos um mundo nosso floreado pelo bem.

@DIOGOARRAIS

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22 de novembro, 2017

BEM-ESTAR

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BEM-ESTAR: satisfação das necessidades físicas e espirituais. Sensação agradável de segurança.
Gozar de todos os minutos em frente à lareira, com os sonhos entrelaçados de confissão; deitar-se sob a sombra de nossa árvore no sítio, sentindo o vento musical; ler histórias antes de dormir, finalizando com um abraço confortante. Bem-estar mesmo é o estado máximo de devoção dos nossos olhares, nossas intimidades, frases, inquietudes e interjeições.
Quando nos sentimos bem podemos respirar calmamente, sem ser ofegantes em cobranças inúteis; fixamos retinas sem que ninguém ao lado seja objeto de desejo; respeitamos limites, gostos, manias; queremos intensamente (e apenas) o que traz a felicidade alheia.
Falamos sem machucar; agradecemos mais do que pedimos; a caridade brota dia a dia; olhamos mais a quem parece sentir dor; gostamos mais de pôr do sol; dinheiro deixa de ser o personagem principal; o chefe na empresa já não é mais tão chato; a paciência renova-se; já não importa se o semáforo demora a abrir; todas as canções no rádio passam a ser bonitas; as roupas quaisquer não mais cafonas são; as crianças tão lindas passam a ser observadas; a gargalhada insana também faz sentido; o latido é sinfonia; faça chuva ou sol, o tempo é bonito; o orvalho toma uma forma gigantesca em nossas percepções; a violência nos choca; xingamentos é repúdio; poesia deve ser todo dia; propagandas na tevê não incomodam; o barulho do vizinho compreendido; regamos as plantas na varanda apenas para amar mais e mais.
Bem-estar é ouvir; é deixar o ego de lado, hibernado (talvez e espero!) para sempre; é fazer cartinhas sinceras; escrever nosso livro; cumprimentar pessoas que não conhecemos; ouvir sílabas dantes bizarras; suar; pedir pastel na feira; correr como Tom Hanks; deixar de temer fobias; viajar e conhecer a Islândia; aplaudir; ficar em pé com a coluna reta; buscar afinação até nos oxítonos portugueses; comer macarronada; limpar agendas; riscar paredes com os nomes que nos marcam; ver o lado de minorias; atravessar córregos; tomar café; respeitar o vinho; dar queijo às visitas; pedir a porra do perdão; chorar enquanto toma banho; é ser e ser, porque ser é ser.
Bem-estar é um estado de fazer o que se quer, com quem se quer. Já o meu, saiba: é fazer tudo isso ao seu lado.

@DIOGOARRAIS

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