18 de janeiro, 2018

EU PRECISO CHORAR

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Tenho que admitir: sou muito fraco com sentimentos. Não pretendo jogar contra eles, pois sei que não vou vencê-los. Também não é o meu desejo fazer isso. Mensagens atenciosas têm um poder (des)graçado de mudar o meu dia, a minha vida.
Seja falada, seja escrita, seguindo ou não a gramática normativa, mensagens sentimentais acionam a fábrica de lágrimas que sou. Meus amigos às vezes me dizem: “Não seja trouxa. Você vai é se machucar!”. E eu sempre desobedeço.
Sou um caçador dessas mensagens do peito. No aeroporto do Galeão, que agora é Tom Jobim, passei uma vergonha horrorosa. Em frente ao restaurante, havia um poema de Vinícius e fui cair na besteira de lê-lo em voz alta. Não deu outra: disparei a chorar. Uma comissária que passava, com toda aquela elegância, perguntou: “O senhor está passando bem?”. Nem caí na besteira de dizer que estava recitando para mim mesmo.
Neste ato confessoral, também houve um dia em que consultei meu amigo médico Sócrates para saber se existiria remédio contra a emoção. Irônico, ele disse: é não viver.
Muito mais que cenas de filmes, os discos de vinil do Frank Sinatra… Ah! São uma sacanagem só às pálpebras. O inchaço chega a durar 48 horas. Exatamente dois dias: já calculei isso, porque quando ouço os bolachões na sexta-feira, é só praticamente na segunda o dia de receber alta.
Minha busca vital é mesmo por momentos únicos em emoção: quando presencio que me perdoam e compreendem essa espécie de “anomalia”, fico lotado de “muito obrigado com olhos úmidos!”
Já não me sinto importunado com os vários apelidos que já ganhei: manteiga derretida, chorão, dramático… Acho engraçado.
Com os dias vividos, parei de pedir ao Grande Relojoeiro do Mundo para me tirar a chuva de lágrimas. Porque – que seria de mim se não houvesse a emoção?
Nem inteligência artificial, nem aplicativo de celular, nada substituirá a coragem e a legitimidade da água mais purificada do mundo: aquela que mostra alguém feliz.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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10 de janeiro, 2018

UMA SEMENTE QUE FLORESCESSE VOCÊ

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Poderia existir uma semente que florescesse você. Que os bons ventos pudessem polinizar a vivacidade de suas cores, espalhando seu olhar pelos parques, difundindo sua presença, plantando sua luz.
Se houvesse uma semente que florescesse você, beija-flores aplaudiriam a ópera de sua poesia; eles se alimentariam de uma doçura que jamais conheceram; voariam ainda mais plenos, ágeis e sorririam mais liberdade.
Uma flor que fosse você faria das árvores dicionários de adjetivos puros, com aquele gosto de mel que jorra de seus lábios, e as abelhas cantariam em uníssono, como num coral em época natalina.
Uma flor que assim fosse atrairia os anjos para que eles fortificassem ainda mais suas asas brancas de calmaria e pudessem professar pelo mundo as honrosas lições de paciência, fraternidade e de paixão.
A ciência passaria a acreditar mais, o céu mudaria de cor, os planetas dariam as mãos.
Flores de você são versos jamais criados, porque não se inventa o que deve ser apenas plantado. Mesmo o tempo, este que corre sem que ninguém pare, teria a necessidade de tirar retratos ao seu lado para contemplá-la pelo eterno. O tempo, um grande espectador de tudo.
É assim o meu desejo, o meu imaginário – que houvesse uma semente a florescer tudo aquilo que vem de sua alma, do seu espírito, da sua admirável forma de dormir e acordar, de lutar serenamente e de dividir. Também de perdoar.
Seria uma honra eu ser a terra, e que alguma divindade agricultora pudesse me escolher como o terreno a tê-la. Que eu fosse arado para recebê-la. Não me importaria em ter que mudar minha humana forma (uma forma renascida, renata!), pois seria uma questão de sorte tamanha vê-la aqui crescer.
Seria eu a terra que riria, a terra que abraçaria com cuidado aquela semente: muito mais que vida, mas a mais pura noção de bem-estar. Vendo nascer seu cálice, repassando nutrientes da chuva que pediríamos e tornando nossa natureza um verdadeiro lar fantástico de amor.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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08 de janeiro, 2018

A Humildade e a Avó

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Num dia, o ser passa a entender que só chega além se pedir desculpas. Se for mais humilde, mais humano, tentando ser menos errante. Porém, como é difícil admitir um erro, um vacilo, um escorregão. Vem à mente a dura sentença: “É melhor mesmo mudar de assunto!”.
Erro também tem a ver com perdão. Quem erra geralmente gosta de ser perdoado (isso, o perdão, dificilmente ocorre). É muito curioso como os dois lados da moeda (digo, conversa!) precisam ser humildes – ora para ouvir, ora para não julgar. Mesmo porque a outra parte, num dia, errará.
Meu amigo, e quando dói na gente?.. e se for contra um nosso parente? Contra o nosso duro trabalho? Aí está lançada a confusão, e não tem essa de português benfeito na sala de estar. É mandar aos quintos dos… deixa para lá. E todo o cuidado com os excessos some. Complexo demais e o risco é abissal!
É certo ou errado estar certo de algo?
Acredito que sofram menos os que têm simplicidade; o cidadão avoado de besteiras. Aquele cidadão ou cidadã despretensiosos, com os olhos cheios de verdade e um coração tão doce (mas tão doce!) que faz lembrar a nossa avó dando presente à gente, com o bilhete de letrinhas tremidas, em noite de Natal.
Avós normalmente dizem: “Será que é tão bom ter razão em tudo que se faz? Eu, meu filho, é que não sei de nada (e no fundo elas têm um caminhão de histórias).”
Vó é a criatura que mais faz questão de mostrar a intenção. Tenciona ser humilde, um grau de bondade a que qualquer um quer chegar. Ama, desligando-se de picuinhas e valorizando o que há de bom. Deixando de perseguir episódios negativos; buscando novos rumos à paz.
Humildade é uma virtude tão respeitosa que quem tem não fala. Quem acha que é não é. No entanto, quem exercita ser um pouco é (e isso é bonito demais).

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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