29 de março, 2018

VOLTO ANSIOSO PARA CASA

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Volto ansioso para casa, com a vontade absurda de desligar o celular. Não quero atender a nenhuma ligação mais. Quero você em carne e osso.
Volto com uma sede absurda de abraço e audição. Quero mais é ouvir e ser ouvido; abraçar e ser abraçado.
Volto ansioso para casa, pois sei que serei coberto de compreensão e cada célula minha sorrirá tranquila, invadida pela maciez da amizade de quem me acompanha na jornada do viver.
Volto ansioso, cheio de conflitos e boas-novas, alguns arrependimentos e conquistas. Que é do ser humano sem as adversidades? E é nessa volta para casa que também me preparo para dizer sincero que o que mais quero é vê-la feliz.
Há dias em que brincamos assistindo aos nossos vídeos antigos e revirando as fotos hilárias; há dias em que nos confessamos diante das questões familiares; há dias em que um está mais forte do que o outro, e assim vamos escrevendo o refrão a compor nossos íntimos no sempre.
Esse retorno tão prazeroso nem precisa de palavras difíceis, não se vigia de colocações pronominais, pronúncias certas, gramática esperta e essas coisas formais. Apenas há a concordância entre mim e ti; invade-nos o diálogo dos olhos, dos toques e das afinidades indiscutíveis.
Na liberdade, no recíproco, na divagação, na música lenta, na poesia do vinil, no beijo bom, na palavra, na educação, no silêncio, no imaginário, no real, no honesto, no nosso santo lugar que escolhemos à doação.
Não entendem quando nos perguntam por que não viajaremos neste feriado. São até mesmo reticentes em adjetivar que “somos estranhamente caseiros”.
Quando pensamos em sentimento puro, pensamos em voltar para casa. Quando pensamos em conforto exato, é para lá nosso melhor destino.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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23 de março, 2018

O DIA EM QUE DESCOBRI UMA PALAVRA NOVA

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Ouvia uma das minhas canções preferidas, quando me deparei com uma palavra que desconhecia: desvelo. Chamei o dicionário e pisquei três vezes antes de conferir o aprendizado.
Desvelo é substantivo advindo do verbo desvelar-se, e significa grande cuidado com alguém; é a extrema atenção; ato ou efeito de dedicar-se.
Lembrei o desvelo de meu avô para com os netos assim que chegávamos a sua casinha tão simples e tão rica – enfeitada de coisas de avô como a balinha 7 Belo, como a pizza quadrada e o povo gritando as gargalhadas de adulto no quintal coberto por telha de amianto.
Lembrei o desvelo de meu amigo Gu, da sua bondade irretocável ao perguntar sempre aquele “Como você está?”, com um jeito aparente bronco e coração de manteiga, de amigo que honra o vocábulo e seu sentido. Amigo é um professor de desvelo: ensina com ação, nem é necessário ver a palavra grafada.
Lembrei o olho brilhante de minha prima Haylla, que – se pudesse – gastaria todos os anos da carne admirando a felicidade dos outros, pois entende que o desvelo, a atenção e o bom carinho são a salvação de um mundo ainda muito salgado e representativo. O maior dom de uma pessoa é o brilhar dos olhos, é a poesia ocular de que alguns fazem questão.
Parente e amigo quando envelhecem com ternura, então, adquirem a maestria do desvelo, e passam a exalar afeto e lição. No fundo da alma devem caligrafar: “é preciso desvelar-se”.
Desvelar-se perante os corações fábricas de compreensão, como irmãos (sanguíneos ou não), dizendo-lhes quão importantes são; chorando sem medo, confessando corajosamente, dividindo o que de melhor temos.
Desvelar-se perante os bons-dias de desconhecidos, de seres bem-educados a sorrirem pela vida; desvelo para com os mais necessitados; desvelo para com quem sofre; desvelo para com a palavra curadora; desvelo para com o tempo; desvelo para com a paciência; desvelo para com o novo; desvelo para com o que nos faz bem, e às vezes não vemos.
Desvelo: dedicação, solicitude, venida, zelo.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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22 de março, 2018

RIR – VERBO TRANSITIVO

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Rir – contrair os músculos da alma, emitindo um amor característico, consequente da sensação mais etérea da esfera do viver.
Disse o mundo: somente o verbo rir é capaz de frases tão felizes e engraçadas. Só ele tem o poder de novas transitividades: eu rio novos afluentes quando amo; eu rio um amor tão puro a ponto de ver que os pássaros aqui querem beber; eu rio cascatas sempre quando desata qualquer dor a partir; eu rio tudo para nada secar.
Eu rio a palavra boa, desafeita das malícias provincianas; eu rio o horizonte laranja, aplaudindo a gratidão por sempre recomeçar; eu rio a frutificação dos campos; eu rio a solidariedade por entender que a força só faz sentido sendo caridosa.
E ela ri a música, quando eu rio o início dos versos; rimos as letras mais sonoras e o peito brilha a estrofe que nos ata, aquela no máximo volume em nossos quintais. Rimos os sons e emudecemos as rusgas rancorosas.
Um rio de amor hidrata dois afluentes que merecem se encontrar. São simples nascentes e – pelo poder da conjugação – passam a gerar novos seres advindos do poder miraculoso do máximo estado de paz.
Rios que respeitam as margens alheias vão juntos ao encontro do mar; vão juntos ao infinito aquífero, dando lugar a outras nascentes que também chegarão lá.
Se rio, flui. Se rimos, fluímos. Rumamos rio afora, conduzidos pela corrente do amar.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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