14 de abril, 2018

A PROFESSORAL TERCEIRA IDADE

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A chamada terceira idade tem uma magia especial. Por isso, de um tempos para cá, passei a observar gente com a experiência de “dezenas de anos-novos”. O atual hábito ocorre-me porque os cabelos brancos andam crescentes. Grisalhar é uma espécie de nova puberdade.
A lotérica, ao lado de minha casa, passei a frequentar mais: casa da sorte é lugar de quem já teve muitas dores. Olhando um senhor que preenchia sorridente o bilhete, perguntei: “Por que o senhor ri para o bilhete?” A resposta foi tão mágica quanto toda a sapiência alheia: “Esses números representam o nascimento de cada filho e netinhos meus. Tenho seis. Uma megassena perfeita! Esse amor pode me dar sorte. ”
Nas saudosas bancas de revista, lá estão os velhos ricos de amor, opinião e leitura. Vendo um senhor indignado diante da manchete, fui intrometido: “Nosso país está um caos, hein?”. A réplica foi-me um susto: “Não é isso não! Os jornais andam muito resumidos, as palavras mal usadas. Deve ser essa tal de internet. Saudade dos tempos generosos, quando a Folha era algo bom de se ler. Era tão bom que a gente recortava e guardava em casa.”
Na feira dominical, foi batata: bastou a mim sentar, pedir um pastel com caldo de cana, aproximar-se de uma senhora e dizer lentamente: “Que alegria é comer o simples!”
Ela – com os olhos brilhosos desde a década de 30 – recitou: “Eu e meu marido, quando tínhamos sua idade, sempre vínhamos a esta feira. Ele comia com uma mão só. A outra? Ficava agarrada na minha. Foi o homem que mais amei na vida… e olha que isso não é fácil não. Ah! Mas Cláudio tinha esse dom de me apaixonar levando-nos para os passeios mais inesquecíveis. Era elegante, moço, nunca saía de casa sem molhar os cabelos; tinha uma sandália de casa e outra para a rua. O cheiro dele está até hoje no meu peito.”
Ouvinte atento, não deixaria escapar a oportunidade de aprender: “O que é o amor na sua visão, bendita senhora?”
Sua sobrancelha rápido mexeu, um engolir preciso houve e a reflexão abraçou meu ego bobo: “O amor, moço, é tantas coisas e às vezes uma: é a saudade do Cláudio; é me lembrar menina, vendo meu pai com as pernas cruzadas num bar em Botafogo; é minha mãe ouvindo Orlando Silva e cantarolando. Eita! Nunca vi mulher mais linda que minha velhota naquelas saias costuradas a mão divina. Amar dói a gente, mas é bom. Não tive filhos, por isso tratava e trato o povo como família. Cláudio e eu viajamos demais, juntinhos. Teve uma vez que ele passou meses tentando decorar um poema de Neruda. Fomos para o Chile. Quando chegamos na casa desse escritor preferido dele, ele esqueceu tudo. É emoção isso, né?”
Agradecido pela lição, nem o pastel consegui comer. Embalei para viagem. Beijei a mão daquela senhora. Fui embora, como se tivesse saído da terapia. Redigi na parede da convicção: a terceira idade é mesmo professoral.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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