06 de outubro, 2015

O Anacoluto

No estudo das figuras de linguagem, é muito comum a dúvida sobre o anacoluto. Etimologicamente, vem do grego “anakólouthos”, que significa “sem sequência, que não tem sequência com”.Costumo dizer que o anacoluto é uma quebra na construção da frase; uma mudança abrupta de estruturação do enunciado.

Na fala, por exemplo, é recurso geralmente muito deselegante. Personalidades políticas costumam proferir assim:

“O Brasil, ele é país que vai evoluir.”

“O Obama, tenho certeza que ele vai ajudar o Brasil.”

Já se pode até afirmar que o anacoluto – na fala – tornou-se vicioso, uma espécie de muleta. Para se evitar, vale sempre a lembrança da relação “sujeito-verbo-complemento” das orações de nossa Língua:

“O Brasil evoluirá.”

“Tenho certeza de que Obama ajudará o Brasil.”

No entanto, no texto escrito, o anacoluto transmite construções poéticas interessantes. Gonçalves Dias, em Obras Poéticas:

“O forte, o cobarde

Seus feitos inveja”

Caso pensássemos tais versos sem o anacoluto:

 “O cobarde inveja os feitos do forte.”

Além da construção poética, a ruptura presente no anacoluto serve para se reproduzir a fala de determinada personagem:

“Quero dizer que.. a minha vida, eu cuido dela!”

(Eu cuido da minha vida!)

Em termos mais simples, na fala e em textos considerados técnicos, o anacoluto não é um bom recurso.

DIOGO ARRAIS – @mesmapoesia e @diogoarrais

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26 de setembro, 2015

Pêlo

Em tempos de ultravalorização estética, depilaram até o acento circunflexo de “pêlo”. Seria uma espécie de higiene gramatical ou uma afronta ao tradicional belo?
Sou daqueles que admiram os “pêlos”, pois as palavras Cláudia Ohana não caem nas ambiguidades, nas bipolaridades perigosas a quem deseja passar a mensagem.
Pêlos representam minha alma “vintage”, minhas memórias, minhas declarações juvenis, minhas fotografias preferidas.
Quando redigia as intensidades, fazia questão de evocar o benquisto circunflexo – justamente para indicar a precisa descrição. Ela, o quarto, os lençóis, o bilhete que eu deixara sob o travesseiro, o jazz baixo, os abraços em sussurro.
A gramática da vida, com a lógica da reforma ortográfica e dos paroxítonos finalizados em O, arrancou-me mais que um acento; arrancou-me um acorde textual. É incompleto o mundo sem pêlo.
Meu Deus, as palavras não podem ser tão nuas!

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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01 de setembro, 2015

Um Acento e Tudo Muda

Terça-feira! Oba! Dia de mais um “post” sobre nossa Língua Portuguesa! Segue abaixo:

Um acento e tudo muda.
A secretária, na secretaria, disse a Antônio, seu chefe, que estava muito gripada.
– Não me medico! Vou sim ao médico. E já! – exclamou.
Ela, sábia, sabia dos riscos da famosa automedicação.
– Meu bebê, por exemplo, seu Antônio, só bebe o que é prescrito! Só come coco do bom; por isso, nunca tem cocô fedido.
Rapidamente, Raissa (que odiava ser chamada de Raíssa) ganhou a liberação para ir ao médico. Antes da saída, proclamou o chefe:
– Não se acostume! Neste mundo é preciso que se rale para sair da ralé, menina!
– Ah! Vou avisar também seus pais! Sabe como anda a violência neste país, né?
Ao chegar ao consultório, olhou para o forro do estabelecimento e lembrou a origem dos chatos espirros: o forró agarradinho à pele com o Édson (apelidado de Pelé).
– Seu nome? – perguntou o médico.
– Raissa!
– Raíssa, …
– Ops! É Raissa! Meu nome não tem acento, tem que pronunciar o ditongo aí. É “AI”: Raissa!
– Perdão, dona Raissa! Que houve?
– Ah! Aqui na Bahia (o senhor sabe, né?), em qualquer baia, a gente dança forró, pele com a pele. Pelé me convidou, trocamos umas palavrazinhas. De repente, eu disse que era secretária. Ele disse que eu era mesmo uma babá muito bonita. Troquei baba com ele, por longos minutos.
Para homenagear o momento, pedi à banda um fá maior e ele ficou fã.
A única coisa triste, doutor, é que, nesse ínterim, fiquei inteiramente gripada.
– Dona Raissa, venha cá! Não repare a minha cã: cabelo branco quando nasce é sempre aos montes. Vou lhe mostrar, por meio deste cartaz, nossa garganta.
– Está vendo lá? – questionou.
– Esta garganta? – perguntou a moça.
– Quando se está sob a friagem, sem a roupa de lã, lá fica inflamado, cheio de ira, como os fanáticos do Irã.
– Em meu último congresso em Roma, aprendi que romã é ótimo para tal incômodo laríngeo. Você se incomoda com essa fruta?
– Não me incomodo, doutor!
– Tome também estes comprimidos, duas vezes ao dia, e ficará curada.
Raissa, diante do tempo gasto na consulta, ficara apenas chateada por não conseguir comprar carne, tampouco quitar pontualmente a dívida, impressa no carnê.
Um acento e tudo muda.
Um abraço e até a próxima!

DIOGO ARRAIS
@diogoarrais e @mesmapoesia

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