25 de agosto, 2015

O Ódio

Semanalmente, aqui no Mesma Poesia, escrevo sobre uma paixão minha: a Língua Portuguesa. Segue abaixo o primeiro texto:

Ódio é uma paroxítona. Paroxítona finalizada em ditongo. Paroxítonas têm a penúltima sílaba forte. No caso do ódio, a sílaba vem ficando cada vez mais forte e dolorosa.
Ódio tem duas vogais, já que se conhece esse número vocálico pela quantidade de sílabas. Ó-DIO. O “i” – acompanhante – é semivocálico.
Ódio possui o acento gráfico agudo, aberto no som, fechado na significação. Ódio está até no dicionário. E nas mídias sociais.
Ódio, do latim odiu, é substantivo masculino; refere-se à aversão a pessoa, atitude, coisa; repugnância, antipatia, desprezo, repulsão.
Por quesitos de regência nominal, exige a preposição “a”. “Ódio à boa conversa!” – escreveria o professor das gramaticalidades e gramatiquices, na lousa verde apartidária.
Por quesitos de regência verbal, é transitivo direto, não exige preposição alguma. “Odeie seu ódio” – picharia assim a regra.
Odiar, por exemplo, é um verbo estranho. Apesar de ser finalizado em -iar, sua conjugação é tão atípica quanto a dos verbos “mediar”, “ansiar”, “remediar”, “incendiar”. Quem odeia incendeia o parágrafo; quem odeia não medeia a conversa sensata. Quem odeia anseia dias melhores?
Pego-me, enfim, pensando nos versos de Caetano, em primeira pessoa do singular, na canção Odeio: “veio enfim o e-mail de alguém / odeio você”. Com essa hospedagem moderna de tal sentimento, ora verbo, ora substantivo, venho – aos poucos – me desconectando da exposição de algumas opiniões e citações.
É esse paroxítono o culpado pelo sangue na esquina, é esse do acento agudo o indicador de distâncias, é esse nome cruel que exige a preposição A e que se esconde em falsos perfis.
Ódio.
DIOGO ARRAIS – @diogoarrais e @mesmapoesia

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