11 de outubro, 2016

A VENDA DA EMPRESA DE DR. CÉSAR

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Wagner era tão fiel ao seu patrão, o doutor César, que os colegas de trabalho desconfiavam da masculinidade daquele empregado tão assíduo. Nada disso. Tudo não passava de desilusão amorosa. Desesperançosos no Amor mergulham-se na carreira profissional.
Com o coração tornando-se deserto, Wagner fizera da CelForte Tecnologia seu verdadeiro lar. Chegava bem cedo, gerenciava a limpeza das salas (assim como o aroma do ambiente que era sempre impecável), fazia um bom café gourmet aos colegas que mais tarde chegariam, revia cronograma de reuniões, escrevia na lousa mensagens de autoajuda.
Doutor César, o dono da CelForte, sempre dizia:
– Wagner, esta empresa é sua casa, meu amigo! Você é o melhor! Brevemente te darei um aumento, viu?
– Fique tranquilo, doutor! Estou feliz com o que ganho. Amo o que eu faço.
E apertavam fortemente as mãos.
Orgulhoso que é, Wagner ia até o banheiro, olhava-se no espelho e emocionava-se por tamanho elogio vindo do antipático doutor César. Os egocêntricos sempre preparam festa a si mesmos.
Os colegas, na maioria atrasados, rotineiros e descompromissados, ficavam reflexivos, vendo Wagner e sua dedicação ao ofício. Recheados de uma inveja feroz que só os humanos conseguem ter, diziam:
– Esse aí deve ter algum caso com o chefe. Poxa! Só o cara aqui é elogiado…
Num belo dia, em meio a uma situação econômica muito favorável do país, Doutor César recebeu uma generosa proposta. Não pensou duas vezes. Vendeu a CelForte Tecnologia por mais alguns milhões que trariam alguma gordurinha à sua conta bancária. Afinal de contas, ricos de verdade são viciados em lucros e em negociações.
Ressabiado, porém, tinha de dar a notícia a Wagner. Antes, pensara:
– Meu Deus, Wagner ficará maluco quando souber. Isto aqui é a casa dele…
Degustando um charuto, pediu para a secretária Vicentina chamar Wagner. Ela assim o fez:

– Senhor, doutor César está te convidando à sala da presidência.

Gente mais amorosa e sensível tem um defeito grave: a intuição. Wagner parecia sentir o término da relação. Gelado da cabeça aos pés, adentrou a sala do chefe:

– Sim, doutor! Boa-tarde!
– Boa-tarde, Wagner, meu amigo! É com o coração partido que lhe dou esta notícia: vendi a CelForte para a Unike do Canadá. Não teremos mais esta estrutura e…

Diante de uma gaguez atípica de doutor César e um longo pedido de desculpas, Wagner iniciou um choro lento.

(…)
Estranhando a demora da reunião, a secretária Vicentina começou a ouvir um som altíssimo de música clássica (que era uma das predileções de doutor César). Agoniada, bateu à porta. Wagner educadamente abriu, deu-lhe um abraço, agradeceu e saiu.
Antes de desmaiar, Vicentina pôde apenas ver Doutor César completamente ensanguentado, com uma caneta no pescoço, sentado em sua cadeira presidencial.

DIOGO ARRAIS
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