27 de novembro, 2017

Almas Consteladas

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De mãos dadas, jardinamos um mundo nosso floreado pelo bem; de mãos dadas, cultivamos estrelas em casa; antes de dormir, admiramos estes dois corações constelados. De mãos dadas, somos simples, práticos amantes do vento, da sombra, da água pura, da relva, da declaração límpida.
Gostamos um do outro assim; fazemos uma fogueira no fundo da modesta casa de campo; recitamos longos poemas russos, bebemos rimas profundas, interpretamos alguns amores do escritor; caímos em gargalhadas causadas por briguinhas inúteis; vemos quão bom é saber da vida passageira, dos instantes insanos, rápidos como nunca, nem o relógio é capaz de voltar. Ficamos velhos respeitosos de nossas sementes fiéis, sempre férteis do recíproco; não criamos expectativas tolas, uma vez que tudo sairá como sempre amamos, e nunca planejamos. Procuramos dar valor ao momento. Brincamos de respirar juntos; de contar quem come mais jabuticaba; gritamos pelo nome do nosso cão Pastel; acariciamos o Mingau, aquele pinscher danado que late um ódio falso vestido de amor, porque ele é só amor e proteção; olhamos nas longes paragens duas capivaras folgadas; jogamos pedrinhas na represa para ver se elas saltitam; fotografamos, mas não compartilhamos nossos clichês de amor; pedimos conselhos ao pônei dado pelo meu avô; assamos ovos e queimamos a mão; vamos logo gritando “uai! você não espera!”; buscamos a coberta antiga com desenhos do He-Man; cobrimos os corpos para um longo beijo de estalar até o monte Fuji; ficamos horas e horas dizendo elogios e relembrando o cinema da semana passada; pedimos proteção; talvez passamos o ano-novo em Maraú, mas podemos mesmo ficar em São Paulo; meditamos, pensamos, perdoamos, aprendemos; jogamos cartas; volta e meia, sai um conselho maroto, como aquele “você devia mesmo é…; pregamos quadros abstratos; emudecemos tevês; abrimos revistas que lembram Goiânia nos anos 80; pretendemos viajar ao Egito; falamos da nossa oitava série; arrependemo-nos de não ter nos conhecido antes; logo voltamos atrás e agradecemos por tudo no exato tempo; recriamos frases; revisamos a vida; aplaudimos o pôr do sol; você sempre chora; eu passo a mão no seu ombro; conheço cada parte sua; você, as minhas; não há maldade, somos cúmplices; como é isso bom – de mãos dadas, jardinamos um mundo nosso floreado pelo bem.

@DIOGOARRAIS

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