22 de agosto, 2016

E SE AMANHÃ FOSSE O ÚLTIMO DIA DE SEU FILHO?

sad-child-portrait

No meio do saguão do aeroporto, estava uma criança, empolgada em seus primeiros anos de vida, cutucando seu pai. Ele estava ao telefone. De repente, sem nem pensar meia vez, disparou uma bronca madura – daquelas típicas de chefe fabricante de traumas. O que sentiu meu coração? Eu conto abaixo.
Tirei o meu fone de ouvido, apesar de a música estar agradável (era um jazz daqueles!), mas me passava uma fome louca de redigir um poema. Quando olho para o lado, em busca de um guardanapo qualquer, um pai muito duro solta a seguinte frase:
– Já te disse para jamais me interromper quando eu estiver ao telefone. Não faça isso! Será que não me respeita? Não tem ouvido?
Pela minha experiência, a criança deveria ter, no máximo, quatro anos. Seu silêncio ali, diante da talvez frase da minha vida, calou também meu coração. Pensei imediatamente: “E se fosse o último dia de vida daquela criança? E se fosse o último dia daquele pai?”
Em meio àquele espanto infantil, eu notara que os lábios paternos tremiam de tensão. O telefone celular à mesa, chefe eletrônico da modernidade, também tremia, à procura daquele executivo ultraprofissional.
Só pude ver o cruzar dos braços da menina. Labiozinhos que reproduziam a dor da bronca. Coluninha ereta, ainda novata em mundo ainda muito tortuoso.
Foi quando eu acenei, com o cuidado de que apenas ela visse, um tchau! bobo. Dei de ombros rapidamente. Fiz cara de esquilo e uma rápida careta, como quem diz um longo “Deixa pra lá!”. Quis correr e abraçá-la muito forte, mas tive medo da reação daquele papai.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais
www.youtube.com/mesmapoesia

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