02 de janeiro, 2018

EMA QUASE DESISTIU DE AMAR

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Ema, poetisa de primeira linha, resolvera abandonar a veia sentimental por recente decepção amorosa. Ela não achava justo receber pedradas ao invés de flores; abreviações no lugar de palavras. Pegou todo o seu arquivo poético e decidira que incendiaria cada verso. Faria uma espécie de ritual, ao lado de sua melhor amiga. Não titubeou e pegou o telefone:

– Rita, Ritinha, não quero mais saber de homem algum. Apareça hoje aqui, às nove, e não precisa trazer nada. Beberemos o melhor.

Rita mal teve tempo de pronunciar ao contrário o nome de Ema (como sempre fazia alegremente). Atendeu ao pedido da amiga e chegou o mais pontual possível. A porta já estava entreaberta, e a cena era a mais lamentável possível (com exclusão do Jazz ao fundo).

– Ema, por favor, não faça isso. É tudo tão lindo e profundo. Não deixe que o mundo molde seu jeito de ser.

Ema estava convicta. Tinha um choro carregado, que durara intensos minutos, mas – à medida que Rita implorava ser ouvida – as lágrimas menos densas eram.

– Ema, minha Ame benquista, minha poetisa, logo você que me ensina tanto amor! Eu imploro, continue cuidando de nossos miocárdios!

– Eu? Quem sou eu? Sou apenas uma mísera escritora engavetada da rua dos Remédios, 45.

– Quer mesmo morrer de sede das palavras? Que autoflagelo é esse de não se render ao seu dom azul mais nobre? Você é mar em peito, numa maré cirúrgica de amor. O que faremos sem sua sensível arte? – insistia a amiga, já tomada por uma inédita sensibilidade.

Nunca se desafia um amante de paragens drummondianas. Ema curvara-se diante das inúmeras resmas grafadas. Pediu perdão às páginas como quem pede perdão a um ente querido. Beijou muitas delas.
Rita ofereceu-lhe uma caneta e versos surgiram puros como nascente de rio. É Ema já ciente de que não consegue viver sem amar.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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