13 de abril, 2017

Fábrica de Risos

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Tinha dedos atípicos, orelha desproporcional, sorria com dentes separados, a voz não seguia afinação alguma, não sabia organizar a mala de viagem, a gargalhada estremecia o vagão do metrô, não falava inglês (e se esforçava horrores com o portunhol), era desastrada, mas exalava o dom perfeito de transformar momentos em festas.

Nunca soube contar piadas até o fim, tampouco entendia as mais picantes. Não mentia sobre entender a história e, mesmo diante de muita gente desconhecida, dizia sonoramente: “Entendi nada!” e “Alguém pode me explicar?” E as risadas multiplicavam-se porque ela ria mais do que quem compreendia o gracejo inicial.

Era assim também com os pratos – grafados em francês no menu. Olhava para mim, ria, e eu já sabia o que se passara. Vinha, abrupta ao ouvido: “Tem alguma lanchonete aqui perto não?”

A fábrica de risos era tão intensa que os garçons deleitavam-se. Houve um que chegou a dizer: “Realmente este restaurante é muito agradável!”

Ora! Não sabia ele o motivo de sermos felizes: a mulher destrambelhada mais incrível na face do universo. Sem vergonha, sem pudor, sem regras, sem tempo ruim, sem preconceito, sem o sem. Com ela, era tudo “com” – com bom humor, com cinco minutos a mais, com indagações evolutivas, com poesia e – claro – com amor.

Jamais me esqueço de sua clássica pergunta, nas tantas imersões gastronômicas por São Paulo: “Quando o chefe traz a carta de vinhos, como saberemos remetente e destinatário? Os Correios vieram entregar?”

Para ganhar um beijo, eu sempre preenchia: “Remetente é meu peito; destinatário é a nossa cumplicidade e emoção. Um vinho que chega é a correspondência sobre nossa história.”

Éramos, em tese, os últimos a sair de qualquer estabelecimento ou recinto, tamanho o nosso compromisso com o viver o momento. No avião, por exemplo, deixávamos todos sair e quando ela levantava….pá! Um tropeço sinfônico. Dávamos as mãos e ouvia daqueles lábios: “Tá tudo certo! Bora!”

A despreocupada, a que nunca reclamava de poses esquisitas em fotos, a leve alma, a sensível com o mendigo, com o velho, com a criança; a não entendedora do teatro, mas a que mais aplaudia a peça.

Dia desses, dialogando com minhas imperfeições (as quais ainda ouso inutilmente esconder), ouço baixinho: “Aquela mulher sempre tirou dez na arte autêntica de viver.”

DIOGO ARRAIS

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