29 de março, 2017

HAVIA UMA FAIXA NA FESTA

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Havia uma faixa na festa, com o clássico dizer “Felizes para sempre!”. Distante da conversa que se passava à minha volta, debrucei-me no sentido da mensagem.
Como criança curiosa, paralisei o pescoço, olhar àquele horizonte. Pensei: não seria linguisticamente melhor registrar “Felizes hoje!”? Não. As pessoas pensariam que no amanhã o casal seria infeliz.
E se a faixa fosse: “Felizes até morrer!”? Pior ainda. Termos fúnebres não combinam com a comemoração matrimonial.
Pensei, pensei, pensei mais um pouco. Tive que aceitar a expressão temporal (ou atemporal) “para sempre”, estampada ali a todos.
Embora tudo acabe, até eu fico mais feliz com a suposição da eternidade, sendo sincero. Tudo que é eterno tem uma magia; tem um quê da divindade na Terra; tem uma mitologia ao redor. Comida eterna, música eterna, risada sem-fim, companheirismo infindável, a bebida que nunca se seca, aquelas fotografias lotadas de roupas chiques (igualmente eternas!), o rever eterno de parentes e amigos distantes, ou seja, vivendo e sabendo que o momento não mais acabará.
A compreensão da frase foi me contagiando, a gargalhada surgindo, a felicidade ressoando no interior. Chamei o garçom e disse: “Se não houvesse o racionalismo da eternidade, não chegaríamos tão distantes na caminhada vital, tampouco em memórias. Lembranças eternizam. Se não fosse para ser sempre, nem memória teríamos.”
Respondeu o sábio da serventia: “Eu nunca me esqueço de festa nenhuma. Sempre me lembro dos casais, das festas, das declarações, das pessoas. Talvez elas não se lembrem de mim, mas eu as guardo aqui (com o dedo apontado ao peito). Não acho que nada sentimental entre em extinção, porque tudo que foi criado para ser para sempre não acaba. Existe sempre a danada da memória. Quem não quer acreditar no ‘para sempre’ deve deixar de ser humano.”
Ali, brindamos mentalmente.
Fui correndo até o fim do salão, valseando meu andar e percebendo os olhares de aflição em meio à minha insana atitude. Fiquei de joelhos à frase. Levantei o braço e pedi que gritassem: “Felizes para sempre!”
Contagiados pela loucura da eternidade, todos repetiram.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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