10 de fevereiro, 2017

MERCADOLÓGICO

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Numa relação amorosa saudável, não há mercado, não há currículo, não há chefia, não há subordinação, divisão de lucros, metas ou código social de conduta. No entanto, muitos transferiram o mundo corporativo às relações pessoais. Passaram a buscar um amor mercadológico.
Assim sendo, o parceiro ou a parceira punirá qualquer deslize, pois não quer um companheiro, mas sim um funcionário. Não aceitará atrasos, cancelamentos ou mudança de planos. Pedir tem a linguagem da ordem. Vive “treinando” a pessoa amada, para futuramente selarem um Certificado de Pessoas Hábeis ao Casamento Perfeito.
Quando a relação se parece com o mundo empresarial, acontecem reuniões protocolares, para tudo há um horário, existem recompensas pontuais, as contas bancárias são símbolos de alegria ou tristeza. Não há confraternização sem motivo – tudo é condicionado à produtividade e o egoísmo está em alto volume. Chegar à presidência fascina.
Uns são tão exigentes que quase soletram aos amigos: “Eu demiti a pessoa da minha vida!”. Expressões desta forma são comuns: “Ela não se encaixava nos meus parâmetros.”, “Não tinha ambições suficientes!”, “Não tinha as graduações necessárias para o Amor.”.
Na relação mercadológica, existe o interesse, e não existe o contemplar. Tudo, absolutamente tudo, tem regra; é burocrático (até mesmo o sexo). E o pior: não entendem o porquê de usarem a expressão “falência”. Ora essas! Vivem como se fosse uma empresa, querem administrar o sentimento como um bem material. A busca não é por coração aberto, mas uma sociedade limitada.
Sócios não se contemplam por horas, não têm olho no olho, não ficam deitados largados pela sala de estar, não se admiram lentamente. Sócios têm fome de capital, mas não da troca de elogios. Sócios querem construir paredes, salas enormes, mesas descomunais, garagens automatizadas em um condomínio fechado.
Sócios não caminham descalços pelo parque, às onze da manhã de uma segunda-feira, não leem um poema ao outro, não fazem mais cócegas, não contam piadas bestas no meio do voo de férias. Infelizmente se programam para chorar apenas em dia fúnebre.
Sócios precisam verbalizar em restaurantes chiques a palavra mais subjetiva da humanidade: sucesso.

DIOGO ARRAIS para o blog mesmapoesia.com.br

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