27 de março, 2016

MILENA E O VASSALO

Escolhi uma bela tarde dominical para convidar Milena. Assim que abri a porta do passageiro para que descesse, ela disse:

            – Não gosto de homem vassalo.

            Ressoavam as letras e sílabas em minha mente: vas-sa-lo. Ela não sabia, mas aquele encontro seria o pedido romântico de namoro. Não pude fazê-lo, pois gotejava uma longa inquietação daqueles femininos olhos.

            Sem muito o que dizer, apalpei suas mãos. Pedi um bom café italiano para dividirmos.

            – Pediu apenas um? – ela perguntou.

            – Para dividirmos, Mi. – respondi.

            – Estou com muita vontade. Pedirei um a mim também. – afirmou.

            Calei-me de um jeito que ela percebeu. Milena não esboçava carinho algum. Quereria eu apenas criar um clima romântico, sacar aquele pingente e simbolizar nossa possível relação. Vira, daquela hora em diante, uma Milena diferente.

            Com pouco fôlego, disse:

            – Não estou me sentindo bem. Podemos pedir a conta?

            Em ríspida resposta, ela disparou:

            – Está tão agradável aqui. Peça a conta e vá você. Bom que assim podemos sentir uma talvez saudade do outro.

            – Que isso, Milena? Você nunca foi assim, amorzinho!

            – Cansei. Estou cansada. Cansei. Chega de diminutivos e protocolos dominicais.

            Ajoelhado, perdi perdão, com a mais alta voz servil:

            – Perdão, perdão! Só não quero perdê-la. Quero-a em namoro. Faço o que for preciso. Peça, eu imploro.

            Com toda a voracidade, rasgou minha impecável camisa e vociferou:

            – Ame-me, sobre esta mesa, sem subordinação, porra!

            Foi então que saquei o pingente do bolso, atirei-o ao chão. Inutilmente vassalo, sumi.

            DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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