23 de agosto, 2016

O HOMEM QUE IA AO PUTEIRO

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Haroldo é um daqueles caras que cresceram na vida. De origem humilde, vendia doces nos ônibus de São Paulo. Em um dia típico, tirou a sorte grande e ouviu uma frase de um senhor: “Estude Marketing e terá muito sucesso na vida!”.
Vendendo doces, dormindo em caixas eletrônicos, fazendo bicos e com muita lábia, Haroldo cresceu na vida. Já quase no período final de seu curso, foi convidado para gerenciar uma banca de eletro-eletrônicos, na Santa Ifigênia. Aprendeu rápido o negócio. De gerente para sócio. De sócio a dono de mais de 200 bancas.
Sorte no jogo… pois é!
Haroldo sempre se revoltava muito com o fato de, praticamente somente após ter sucesso financeiro, começar a receber cantadas, elogios, convites para baladas e viagens luxuosas. Talvez esse ira (de certa forma verdadeira) tenha enrijecido o coração desse ser.
Por simplesmente pouco conhecer o mundo de Louis Vitton e de Dom Pérignon, mostrou-se sempre desajeitado com as relações de interesse. Tímido, desengonçado, o valente empresário passou a frequentar seu lugar favorito de “relaxamento”: o puteiro.
Dizia sempre: “Aqui não me perguntam o que faço, o que sou.”
Ciente das leis monetárias bem definidas dali, Haroldo criava afinidades cada vez maiores pelo ambiente. Pronto. Ele ia, bebia, dizia não, isolava-se, convidava quem quisesse, pedia para trocar a música, sentia-se livre. Sem regras. Sem hipocrisia.
Com o passar dos dias, foi se abrindo a uma verdadeira terapeuta da noite. Um dia, chegou a oferecer generosa grana para que ela ficasse mais com ele. Ela negou. Disse que gostava da companhia dele e que, naquele momento, já havia feito o dinheiro suficiente. Ela simplesmente gostava do “desconhecido” Haroldo. Trocaram telefone.
Em um belo dia, ao voltar ao local, ficou sabendo da internação hospitalar de sua companheira da alma livre. Escolheu seu melhor terno. Foi ao hospital, acompanhado de belas rosas, e de intensidade amorosa.
Ao chegar lá, recebeu a notícia da morte de sua melhor companhia da vida. Chorou muito. Os enfermeiros acharam ainda um bilhete, escrito a batom: “Haroldo, companhia minha!”

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais
www.youtube.com/mesmapoesia

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