23 de setembro, 2015

O PODER SANGUINÁRIO DA DESPEDIDA

IMG_7672
O momento da despedida sangra nossas mais ocultas páginas; sangra nossas memórias; sangra as pálpebras; sangra as esperanças. Despedir-se é isto: tem enorme poder sanguinário.
Sabendo disso, muitos seres optam pela não despedida. Sabem a data da partida, mas saem à francesa. Preferem deixar um bilhete, com singelos dizeres. Não vale julgá-los meramente por frieza – eles sairiam completamente ensanguentados do momento.
Há aqueles que se despedem de todos os objetos antes da partida: tocam abajures, abrem e reabrem as portas do guarda-roupa, acariciam camisetas, reveem discos, beijam o Fusca na garagem, olham para cada canto como se cada canto fosse um ente querido. Beijam a única cafeteira, por terem a amado fielmente.
Há também os que são apunhalados pelo “bota-fora” surpresa e o sangue de tantos “Fica bem!” espalha-se por todos os lados. Eventos-surpresa são incêndios em nossas gavetas; eventos-surpresa são rebeldia em excesso. Nesse tipo de situação, a lágrima pede para deixar de ser lágrima, não aguenta mais ser solicitada em demasia. Lágrimas são como o gelo na bebida – nem muito, nem pouco, sem derreter.
O estágio mais sanguinário de uma despedida é receber uma homenagem de um velho amigo: é uma situação de quase morte. Sou daqueles que nunca quero me despedir de um amigo, pois sei que eu me ensanguentaria, em todos os sentidos que tal verbo possa emitir.
Enfim, não é nada bom ficar lembrando despedidas, pois pareço ver que até as rodinhas da mala quereriam abrir mão do ofício. Aquela gente querida, em círculo, esperando o último abraço, aquele senhorzinho com a rosa na mão, aquela criança muito míope tentando em vão reter sua armação, aquela senhora-tia trêmula para uma das últimas fotografias, aqueles malditos sussurros afônicos.
Quando busco revisar o conceito de insanidade, vem à minha mente o sujeito que – na rodoviária de Belo Horizonte – me disse adorar estar em qualquer tipo de despedida.
Insanidade está na devoção por tamanha dor.

DIOGO ARRAIS
@mesmapoesia e @diogoarrais

Compartilhe este texto
Escreva seu comentário

* Preenchimento obrigatório. Seu email não será divulgado.
Quer que sua foto apareça no comentário? Clique aqui.
Comente pelo Facebook
1 Comentário
  1. Loreta  23/09/2015 - 19h08

    Seu texto acalentou meu coração angustiado que agora espera na certeza de uma despedida sanguinária. Confortou – me verdadeiramente.