30 de novembro, 2017

o primeiro homem a vencer o vazio

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nunca se vá, nunca se despeça, mas se chegar a hora, saia de fininho, apague a luz, mas à francesa, não me deixe vê-la, não me faça sofrer, não quero abraços finais, não quero bilhetes tórridos de dor, não quero ter que ficar a observar o horizonte e pensar na vida pós-ida sua, porque qualquer um sabe que despedidas são sanguinárias, são navalhas afiadas diante do coração a pulsar, são como crianças solitárias esquecidas na escola após o fim da aula, são como cachorros encoleirados na porta do supermercado, são paisagens cinzentas que clamam pelo sol, é como sentir-se sozinho na festa de ano-novo, é querer e não poder, é sofrer em reticências que não acabam, é trabalhar sem nunca ter férias, é ver o mar e não poder se banhar, é ter a palavra de amor sem ninguém a ouvi-la, é – e você sabe – um sofrimento desgraçado o tal do desprender-se do laço sentimental, não nascemos para isso, não fomos concebidos para estar longe de ninguém, nunca houve na história desta carne de duas patas mamíferas uma sociedade de alguém só, nunca houve na literatura o registro de um romance assexuado, monossilábico, solitário, em monólogo, não, nunca houve, e é melhor mesmo que não haja, pois não podemos alimentar a canalhice dos que se vangloriam por não ter de dividir absolutamente nada com ninguém, os famosos egoístas indivisíveis, de mármore na poesia semiexistente, e também por isso eu imploro mais uma vez não ter que dar tchau! para justamente não sentir o oposto do mundo, que é ter que se virar tão-somente sozinho, é melhor que eu me engane e toque a campainha, abrace o vento e o travesseiro, tendo a imaginação de cada curva sua, de cada gesto de carinho, de seu amor eterno, pois já disse a todos os meus amigos que serei o primeiro homem a vencer o vazio da solidão.

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