26 de outubro, 2016

os apps do amor

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Vivemos uma era em que, com alguns cliques, podemos conhecer o amor de nossas vidas. A tecnologia interfere até na maneira como encontramos gente. O mais incrível – selecionar idade, sexo, localidade, gostos. Foi assim que conheci Gizele.
De cara, fiz a pergunta a ela de que mais gosto:
– O que te faz feliz?
A cada resposta, o meu brilho no olho, porque ela admirava a maneira poética da vida; porque ela admirava gestos de gentileza; porque ela aplaudia pores do sol como quem agradece o artista.
Quem é intenso digita como se ali fossem os últimos minutos da vida. Para glorificar mais ainda aquele virtual diálogo, Gizele dizia – com nobres recheios de gratidão – sobre a família. Ela falava do pai cantando adoração. As mensagens sobre a saudade de casa beijavam o caráter aprendido.
“Que musa!” – eu pensava. Por onde estivera uma mulher tão rara assim? Melhor nem pensar, mas sim curtir cada segundo daquele papo inebriante. Mesmo porque, em tempos de internet, a expectativa não tem que existir. É o presente e o presente.
Voltando às intensidades, descamisei a sinceridade e dei maior atenção ao que ela pensava sobre o percurso da vida. Quem não se fascina por alguém que valoriza abraço, cafuné e viagens? Foi aí que cumprimentei o aplicativo que me trouxera um ser tão sensível. De uma voz doce, que arrepiava.
Tão magnetizante papo há de me fazer concordar com os mais racionais: isso é quase impossível, mas ainda bem que a Língua registra os “quases”. Porque quase impossível carrega a possibilidade de ser feliz.
Marcamos um bom vinho, e o sabor foi ainda melhor. As taças estavam radiantes e o garçom meio bobo diante de duas pessoas que se entreolhavam como se brincassem de quem pisca por último.
A maior resposta para um momento mágico é quando o tempo se sente desprezado; quando o relógio deixa de ser importante; quando as mesas do restaurante sentem vontade de dançar valsa.
Os aplicativos do amor exigem talvez um cuidado maior com quem se conversa, mas neles é muito possível encontrar alguém que vai valorizar o toque de suas mãos, o olho no olho, a alma na alma, a pele na química da entrega. O cuidado recíproco.
Porque, em um mundo de tamanha solidão e descrédito, buscar a felicidade onde quer que seja é sinal de nossa boa intenção. E bem-intencionados (destituídos de medo do novo) acharão o Bem – na internet ou fora dela.

DIOGO ARRAIS
www.youtube.com/mesmapoesia

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1 Comentário
  1. Cléo  26/10/2016 - 04h00

    Belas palavras, como sempre, ótimo texto.
    Te desejo muita sorte…Que você faça parte da exceção.
    Encontrar alguém bacana nesses aplicativos é o mesmo que ganhar na loteria.