20 de abril, 2017

SALA DE CINEMA

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Sala de cinema é um dos templos do amor. Lá, o silêncio do imaginário dará ação às mãos, a se conhecerem mais. Lá, o beijo seguirá o roteiro, em acordo aos ritmos das cenas projetadas na tela. Lá, nem mesmo os mais broncos resistirão à aula de etiqueta do romantismo.
Para os mais tímidos, são confortáveis as luzes semiapagadas – e do muito tempo para refletirem ainda mais sobre o flerte. A cabeça pende ao pescoço alheio e por ali pode ficar até o clímax.
É um alívio à timidez não ter que falar nada: apenas deixar a linguagem corpórea exalar poemas desfabricados, de modo que a outra parte entenda o que quiser.
No entanto, para os desinibidos, o cinema é a preliminar do reavivamento, da adoração à química que lhes fizeram, do toque sincero; é o lembrar de quando o saxofone do coração tocou o jazz mais intenso.
Desinibidos que deixam de ir ao cinema cometem o grave pecado de não observarem como as cenas foram e são produzidas. Desinibidos que não veem mais filmes correm o sério risco de banalizarem a magia do pouco a pouco. São pessoas que podem deixar de ouvir a trilha sonora da vida.
No cinema, é hora de sentir o cheiro da roupa alheia, do pescoço, do braço, da orelha, do estalar dedos e até do raspar as unhas nas digitais de quem o identifica no sentimental.
Sendo decepcionante o enredo do filme, as companhias – no edifício da sétima arte – bastam-se.
Por tudo isso, ir sozinho – ali – nunca será normal. Haverá sempre a pergunta da funcionária da bilheteria: “Uma entrada só?”.
Ficar sozinho àquela poltrona é uma das maiores noções do faltar. Faz frio, por mais que ar-condicionado esteja desligado. O barulho da pipoca incomoda; o cheiro, então, intragável. A espuma do assento não gera conforto algum, mesmo que se esteja numa daquelas salas VIPs.
O cinema não é balcão de piano bar. O cinema não foi concebido para se afogar as dores da solidão, muito menos para o deleite da liberdade do solteiro. Ir sozinho ao cinema é como ir desacompanhado ao motel.
Por essas e outras, que sempre reflito: como está a minha frequência cardíaca na igreja de Tarantino?

DIOGO ARRAIS

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1 Comentário
  1. Marina Falconeri  29/04/2017 - 00h07

    a magia do pouco a pouco…
    belo texto.