19 de outubro, 2016

SOBRE TER UM BLOG E NÃO SER LIDO

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Escrever na internet é como ser músico de churrascaria. As pessoas sabem de seu blog, veem de relance sua palavra, mas quase ninguém a observa, muito menos comenta.
Escrever na internet é como aqueles pastores na praça da Sé, os quais são alvo de risada e de um preconceito absurdo. Sinto-me exatamente assim: sob um sol escaldante e suor intenso, divulgando a palavra sanguinária do átrio.
Escrever na internet é como vender artesanato pelos botecos, e sentir o olhar satírico e bêberdo do senhor de bigode:

– Fala, maluco! Cê é hippie, mermão? Tá vendendo esses “bagulho” pra quê?

Viciado, o escritor até tenta largar sílabas, versos e frases, mas isso depende de um trabalho árduo de recuperação. Temente a recaídas, ele não largará o hábito que o acompanha desde o “dia um” neste mundo.
Escritor tem a mania de ler e acreditar. Acredita que, com a rede mundial de computadores, poderá enfim fazer dos manuscritos vida digna. Trata a Mídia e o Povo de selecionarem alguns raros cidadãos e vociferarem:

– Escrevam, porque serão lidos e publicados! Nós amamos a Poesia!

Mentira. Tudo é como antes, como na época de Calvino. Justiça seja feita, atentando-se à diferença entre máquina de escrever e a tela 4k, entre o caderno e o tablet.
Mais democrático talvez fosse na época do jornal impresso – lá havia a certeza de cidadãos ávidos por uma sintaxe inquietante. Cronistas antigos, embora nem conhecidos fossem, ganhavam a boca de Nélson na discussão sobre o romantismo do Fla-Flu, ou na declaração sobre Capitu.
O verdadeiro escritor batalha por interação, quer ler a crítica, quer responder à pergunta, mesmo que isso custe a solidão de passar horas em frente a parágrafos. Quer uma chance, tão rara como o prêmio da Loteria Federal.
Por essas e outras, é que o escritor usa pseudônimos e desativa contas digitais. Muitos jogam às traças escritos sinceros e geniais: na certeza de que serão consumidos ao menos pelos insetos.
E nem isso conseguirá o escritor na internet, já que todo o conteúdo está no vácuo de redes sociais.

DIOGO ARRAIS
www.youtube.com/mesmapoesia

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7 Comentários
  1. Francys Rosa  19/10/2016 - 12h51

    Parabéns pelo texto…Tenho acompanhado seu trabalho…Amo as dúvidas de “jefinha”muitas tbm eram minhas, rsrs. Obrigada por sua originalidade

  2. Érika Ponte  19/10/2016 - 13h04

    Triste realidade, galera interessada em futilidades, fofocas e piadas.
    Difícil, mas não pode desanimar…
    Escritor maravilhoso, de poesias belíssimas, bj

  3. Marina Falconeri  19/10/2016 - 14h30

    Que triste… mas lindo.
    A maneira como você escreve é tão bela, que suaviza essa triste realidade da qual infelizmente faz parte o escritor.
    Gosto muito dos seus escritos – a forma, o conteúdo, o sentimento. E desejo que esta luz que sai do seu coração chegue a muito mais pessoas… Levando-as constantemente, e a mim tb, a “voar fora da asa”…
    Parabéns. E (mais) sucesso.
    Abração, Arrais.

  4. Cléo  19/10/2016 - 17h11

    Ser escritor, nos dias de hoje, é um ato de coragem.
    A escrita nunca esteve tão banalizada como está atualmente.
    Os bons escritores estão longe dos holofotes, enquanto fatos bizarros e tendenciosos, sem conteúdo nenhum, explodem nas redes sociais.
    A cultura e intelectualidade já não tem mais valor.

    • Diogo Arrais  26/10/2016 - 01h39

      Obrigado pelo carinho de sempre. Você é uma leitora especial!