20 de dezembro, 2015

Teriam Fabíola e o Marido sido Amigos?

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Durante esta semana, um inteligente amigo meu registrou o seguinte no Facebook: “Todos nós já fomos, pelo menos por um dia, Fabíola.”. Não discordei dele, e não comentei naquele momento exato. Refleti.
Vivemos em um mundo repleto de regras, de impostos, de datas comemorativas, de imposições sociais. Este texto mesmo – por exemplo – tem que seguir as concordâncias verbal e nominal; senão, já será motivo do apedrejamento do leitor.
De tantas regras, nossa mente talvez crie outras. Como diria o Roberto, do Glória Bar: “Neste mundo, meu amigo, o sujeito já acorda pecando!”
É pecado desejar, é pecado atrasar alguns minutos, é pecado descasar, é pecado não ler um livro, é pecado ler até a metade, é pecado não estudar, é pecado beber, é pecado ser abstêmio, é pecado ser político, é pecado ficar calado, é pecado o crente, é pecado descrente, é pecado não ir à missa, é pecado não saber o que é missa, é pecado fazer tatuagem, é pecado ser macho, é pecado ser mulher, é pecado ser trans, é pecado ser viado, é pecado não fazer exercícios físicos, é pecado tomar hormônios, é pecado o Futebol, é pecado o Samba, é pecado a letra do Baile, é pecado ser socialista, é pecado ser capitalista, é pecado não entender Star Wars, é pecado conhecer The Beatles, é pecado Amado Batista, é pecado o Wesley Safadão. É pecado já pensar em pecado.
Quando fui coroinha, por exemplo, em 1989, rezava absurdamente para que aqueles minutos voassem. Ficava ajoelhado, tocando um sino, suando litros, tremendo de medo que alguém pudesse desvendar os meus pensamentos e, assim, tivesse eu que ficar ao lado do demônio por toda a eternidade. Deus me livrasse daquilo! Nem tinha terminado a leitura de Dom Casmurro…
E a famosa confissão? Virgem! Que medo eu tinha daquilo – desvendar cada milímetro dos adolescentes desejos! Era hormônio demais para que o senhor Padre pudesse entender. Confessava apenas que estava ficando viciado em Sonic, Mario Kart, Alex Kid e que dava umas indiretas para a Thaís (minha colega Sabrina Sato, à época).
Cresci e comecei a espantar-me com a “obrigatoriedade” de que o sujeito só será feliz se casar e tiver filhos. Já frequentando mais o Glória Bar, lá estava o Roberto e suas filosofias: “Se o sujeito for mentir, fica solteiro logo. Se desejar outra mulher, fala a verdade, porra!”.
Desgraçado! – eu pensava. Como pode um sujeito, bêbedo daquele jeito, com frases tão sóbrias!
Com o tempo, conheci mulheres extraordinárias, com as quais tive séria vontade de subir ao altar, de confessar meus pecados, fazer o curso de noivo e preencher a ficha cadastral da sociedade. Não aconteceu. Ao menos até hoje.
Caso aconteça hoje, revelarei o que (nem mesmo na confissão) nunca revelaria: que não acredito neste lance de felizes para sempre, que não gosto de conto de fadas, mas um vívido romance é sensual e possível.
Revelaria a possível diminuição da atração sexual pela esposa, gostaria muito de saber como ela me enxergaria. Não acharia ruim que ela me contasse suas mentais aventuras; não acharia ruim contar as minhas.
Diria que não entendo o fato de o sujeito se comprometer a uma base sólida e criar subsolos, com passagens tão secretas, com vãos escuros. Ora! A vida a dois sem sensualidade é como vinho sem álcool, torna-se suco.
Penso que a base de qualquer relação está na amizade. O amigo é também capaz de respeitar a intimidade alheia, o dizer não, o dizer sim, a perda, o ganho. Amigos entendem a mania alheia, as imperfeições. Com o erro, perdoaremos se quisermos. Ganharemos o perdão se merecermos. É nobre o perdão, mas não há maior nobreza que a verdade de sermos livres.
Pensei tanto durante esta semana, em que minhas férias chegaram, que voltei ao Glória Bar. Lá estava o velho Roberto. Perguntei, de cara, o que ele tinha achado do episódio com a Fabíola. Ele, desgraçadamente, parodiou Lennon: “O casamento é aquilo que acontece enquanto você cria outros planos.”
É, velho, Roberto, talvez Fabíola e o marido nunca tenham sido amigos.

DIOGO ARRAIS – @mesmapoesia

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