26 de setembro, 2015

Pêlo

Em tempos de ultravalorização estética, depilaram até o acento circunflexo de “pêlo”. Seria uma espécie de higiene gramatical ou uma afronta ao tradicional belo?
Sou daqueles que admiram os “pêlos”, pois as palavras Cláudia Ohana não caem nas ambiguidades, nas bipolaridades perigosas a quem deseja passar a mensagem.
Pêlos representam minha alma “vintage”, minhas memórias, minhas declarações juvenis, minhas fotografias preferidas.
Quando redigia as intensidades, fazia questão de evocar o benquisto circunflexo – justamente para indicar a precisa descrição. Ela, o quarto, os lençóis, o bilhete que eu deixara sob o travesseiro, o jazz baixo, os abraços em sussurro.
A gramática da vida, com a lógica da reforma ortográfica e dos paroxítonos finalizados em O, arrancou-me mais que um acento; arrancou-me um acorde textual. É incompleto o mundo sem pêlo.
Meu Deus, as palavras não podem ser tão nuas!

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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1 Comentário
  1. Celeste Monteiro  30/09/2015 - 12h51

    Rótulos que devem ser quebrados!