06 de janeiro, 2017

um estado chamado eu

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Ninguém pode deduzir o estado alheio. Sem que exista a confissão, não é possível saber ao certo como uma alma está.
Se o sorriso está solto, pode ser apenas uma piada incrível, ou a pose para uma foto histórica.
Se a pessoa parece abatida, pode ser o desgaste dos últimos meses, ou um longo voo Tóquio-São Paulo.
Quem se cala pode ter sentido vontade de poupar a voz. Pode ter sofrido chateação, ou seja, está tomando saudáveis lições com o vazio belo do “não barulho”.
Se parece doente, pode ser uma virose chata que insiste em impedir a essência de saúde do cidadão. Pode – também – estar num pós-operatório daqueles. Pode ser nada.
Se está branca demais, não gosta de sol. Se está superbronzeada, tem a dádiva (ou não) de uma vida praiana, trabalhando às vezes mais que a média populacional.
Se não tem trabalho, enjoou de trabalhar, quer dar um tempo, ou se aposentar de vez. Se trabalha demais, pode ser uma fuga, ou a missão de mudar milhares de vidas de outros trabalhadores numa empresa.
Se parece rica, está apenas gastando com intensidade o que lhe resta na conta bancária. Se pobre, está guardando segredo sobre uma renda formidável a que chegou.
Se sensível demais, homo, artista, chata, em luto, ou nada disso. Se bronca, mal-educada, deselegante, é roqueira, faz crossfit, ou não se comunica por palavras.
Se fala de sexo, é tarada, compulsiva. Se não fala, é frígida ou ainda lhe falta uma massagem tântrica.
Se está solteira, colheu a solteirice, optou por isso, ou está numa tristeza profunda. Se está casada, pode querer a monogamia eterna. Pode pensar em se separar amanhã.
Se engravidou, pode não precisar de pensão alguma, muito menos de marido, ou ser exatamente o oposto.
Se isola de tudo, virou monge, surtou, evoluiu, está num retiro, ou se rebelou.
Apenas o “eu” para dizer ao certo o que se passa. Ele e mais nada.

DiogoArrais – youtube.com/mesmapoesia

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05 de janeiro, 2017

OK – Cafonice Comunicativa

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“OK!” é uma palavra cretina. É feia à beça, cafona ao extremo. Sua frieza e seu comodismo vêm há muito tempo.
Imagino um sujeito que redige ao chefe:

– Bom-dia, senhor Gomes! Recebi o e-mail e já convoquei todos os colaboradores do Setor BETA, para uma nova reunião.

Ansioso por demonstrar um bom trabalho, recebe como resposta:

– OK!

Não há como negar que o subordinado se sentirá instantaneamente mal. Vida que segue, e que ele nem pense em reclamar disso.
No amor, então, o “OK!” é como chamar briga. É ríspido, insensível demais (independentemente da ocasião e da hora):

– Passei a tarde inteira lendo mensagens que me fazem recordar o nosso amor. Que assim seja sempre, no calor de nossos corpos e almas. Amo você!

O rei ou a rainha das desculpas tecnológicas da rapidez louca do cotidiano envia como r-e-s-p-o-s-t-a:

– OK!

Com isso, é garantida uma rápida e revoltante ligação telefônica, com um bom puxão de orelha diante do ato mal-educado. A questão não é nem a reciprocidade sentimental, mas a falta de educação, como a do sujeito que insiste em não responder o cumprimento de um vizinho no elevador.
No meio familiar, pode ser ainda mais grave. Isso levaria a um castigo doloroso, e uma mãe poderá deixar de conversar com o filho pelas próximas décadas:

– Meu filho, que Deus ilumine seus passos em mais esta viagem de férias! Bom descanso! Mamãe ama infinito você, criaturinha!

– OK, mãe!

Que dor é a abominável mensagem relativa, de maneira irônica, a “Tudo bem!” Por isso, não a uso, não gosto de recebê-la e rezo para que as próximas gerações esqueçam-na bem longe.

DiogoArrais – youtube.com/mesmapoesia

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04 de janeiro, 2017

Etiqueta e Alívio

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Ao telefonar a um amigo, o maior alívio que sentimos é a audição alheia. Ser ouvido basta, porque quem não pode se abrir explode. Daí, serão cacos de si lançados vento afora.
Mal a ligação é iniciada, a história já nem introdução tem. Os adjetivos condenatórios a quem nos lesou (ou mesmo quem nos machucou) são lançados sem dó algum. A malfalada frase “O mundo está do avesso!”, os risos em concordância do outro lado da linha, um “deixa disso!, mas você tem razão!”, voz desafinada reclamando e um convite para um café em tom de desabafo – é sempre tudo possível com um amigo.
O ser de nossa mais abissal intimidade não se satisfará com uma mensagem curta de Whatsapp. Ao menor sinal de problema, ele telefonará ou pedirá a ligação o mais rápido possível. Atenderá com um bom riso, pedindo logo que você esqueça o passado. Comunicação assim é como a de um filósofo socorrista: “Meu amigo, projetar futuro, estando preso ao passado, é não ter presente!”.
Por mais que vejamos tanta gente perfeita em nosso dia a dia, com carros de luxo, sorrisos com dentadura de celebridade, fotografias editadas na redação da Vogue e legendas bíblicas, temos muitos problemas. E a regra número um de hoje em dia é jamais citar publicamente um problema, com a consequência de arruinar o que de bom fizemos.
Num mundo em que todos dependem da imagem (e a câmera tornou-se o objeto mais poderoso do mundo), é bom estar ciente da encenação. Contudo,  “gordura”, “magreza” e “desapontamentos” são inevitáveis. Erraremos ainda mais e mais. Não publicaremos isso, mas o conforto virá daquela alma amiga, que compreenderá nosso “eu” em imperfeição.

DiogoArrais – youtube.com/mesmapoesia

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