21 de dezembro, 2016

CORNO

Quem nunca foi corno? Ninguém escapa. Todos já foram ou são. Alguns menos, outros mais.

Considero-me corno pela primeira vez quando rompi alguns tratos que tinha em mente.

Porque de uma coisa eu sei – o homem é mestre na arte de romper tratos consigo mesmo e com os outros.

Ah! E quando alguém muito convicto disser “Eu nunca fui corno na vida!” não seja deselegante de discordar.

É um alívio descomunal crer na perfeição!

youtube.com/mesmapoesia

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19 de dezembro, 2016

o dom de carol

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Carolina tinha dons diversos. Dançava, escrevia poemas, calculava contas complexas, era pontual, solidária, tocava contrabaixo, falava idiomas. O maior de seus dons – mentir com maestria.
Era incrível como ela chorava compulsivamente o abandono, a paixão, o ciúme, a saudade. Ajoelhava em câmera lenta e pedia desculpas. E, de fato, aquela dramaticidade foi me envolvendo ao longo dos meses. Fui aprendendo, no dia a dia, a apreciar seus atos e expressões falsas. Sozinho, eu pensava: “Ela diz que me ama tanto que talvez eu acredite.”
Eu era como um crítico de arte das suas cenas. Eu a estudava, desde o cheiro, o passar das pernas, a tonicidade das palavras, o jeito do decote, até quando me convidava ao balé sob os lençóis de minha residência.
Vendo-me aplaudir através dos olhos, Carol – de modo pausado – exclamava:
– Você é um gentleman!
Assim que eu a deixava no elevador, uma lágrima lenta já me afirmava os perigos de conviver com uma mulher tão calculista ao mentir. Eu tinha a ciência de minhas fraquezas, menos a de sentir o que não era verídico. Nesse ponto, eu era muito forte.
Meus amigos mais próximos, encantados pela forma como ela se debruçava sobre mim, eram enfáticos:
– É a primeira mulher que percebemos apaixonada por você. Ela é sua, caro!
Ledo engano o deles. Carol era de qualquer outro, menos de mim. Desconfiado e triste, em um sábado à noite, telefonei:
– Você não vem? Preparei risoto e abri o melhor dos Malbecs, ao som de Sinatra.
Nesse dia, além de a ligação estar péssima, ouvi apenas longínquos gemidos. Uma repentina pausa, a queda da ligação e a resposta veio por mensagem: “Baby, estou ocupada. Depois ligo. Beijo de quem é louca por você!”
Sozinho na sala de estar, decidi ficar bêbedo, dançando ao som da música baixinha e ciente das minhas intuições. Foi quando recebi uma notificação do porteiro:
– Dona Carol está aqui.
– Peça-a para subir! – instantaneamente exclamei.
Após o abrir das portas, vi-a sorrindo seu maior prazer: enganar-me. Ela era magnífica em suas fraudes convicções. Após o beijo em suas mãos, convidei-a para dançar.
Jamais me esquecerei da única vez em que ela disse a verdade:
– Você é cúmplice da minha maior fantasia. Você me conhece, você sabe. Não me abandone, muito menos me deixe ir. Não precisa nem me dizer a verdade.
Dormimos ali mesmo, na sala, nus e abraçados.

DIOGO ARRAIS
@diogoarrais
youtube.com/mesmapoesia

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14 de dezembro, 2016

FLOR TEU CORPO

Ontem vi uma flor no teu corpo

era hortênsia serena

cheirava à tua rósea estação

Senti nova cor no teu gosto

era hortelã

eu degustava tua imensidão

Percebi novo olhar

novo jeito

riso distinto

um novo abraço

sem aquele cansaço

de quando íamos brigar

Passei a te ver diferente

antônimo do amor egoísta

porque deixei de ser o homem carente

que estava geralmente

sentado a reclamar

De tanto insistir

vi em ti novos mundos

e tão-somente quis melhorar

Novas conversas

novas frases

novas sílabas

novas mulheres que amanhecem em ti

já que minha poligamia

é te desejar

Porque tu mudas tanto

enquanto emudeço

louco para te acompanhar

Porque tu és tão mulher

tão melhor

do que qualquer adjetivo

no qual já pude pensar

Tu tens o poder

de, a cada dia, uma nova flor em ti

no mundo e nos outros

fertilizar

DIOGO ARRAIS

youtube.com/mesmapoesia

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