06 de abril, 2017

O amor é

Como se eu pudesse voar
Quando o céu puder tocar
Como se o vento fosse falar
Quando a chuva vier abraçar

O amor é

Como se nossos olhos dançassem
Como se nossos números se somassem
Como se tudo, mais que a verdade, fantasiasse
Como se o sempre, agora, se tornasse

O amor é

Como se a sinfonia sorrisse
Quando o peito não respirar mesmice
Como se, sobre o lençol, a rosa surgisse
Quando, enfim, você meu sim pedisse

DIOGO ARRAIS

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05 de abril, 2017

NO TRÂNSITO DO AMOR

coração

Havendo dois caminhos, só escolhe o mais difícil quem não conhece o endereço. Ninguém tem a pretensão de ficar em engarrafamentos, ouvir buzinaço, sentir a poluição, passar por mais semáforos, parar a cada instante diante de uma nova faixa de pedestres.
O condutor de um automóvel, com o tempo, passa a conhecer atalhos; vangloria-se sempre por conseguir driblar até mesmo o mapa eletrônico dos celulares; comemora com gritos fortes tantos carros que deixou para trás.
Inversamente proporcional é o coração e suas ruas. Com o tempo, os atalhos vão sumindo; os engarrafamentos são praticamente inexistentes; a poluição está apenas no olhar do outro; não são necessários semáforos, contudo os que existem ficam sempre na cor verde.
No trânsito do amor maduro, a questão é justamente ir pelo caminho mais longo. Rezam até para que nunca acabe – alguns redigem nos muros da aorta que seja eterno enquanto dure.
Nesse ir e vir de doação sanguinária, não é preciso fiscal, pois ninguém está sujeito a multa, simplesmente por ter estacionado onde quiser. Não há lugar de proibição, não há problema de espaço, estar junto é o sentido.
Lá, onde o éden se fez, não se usa a expressão Imposto para Tal Qual dos Veiculares. Os sorrisos calmos são a resposta para os que chegam ainda afobados do capitalismo: tudo é gratuito, a serventia não é escravatura, a malícia é extinta. Transitar com o amor maduro é ter o vento puro, na face a se emocionar sem culpa.
Nesse lugar, em que todos os seres humanos estão ou estarão, o ato de locomover-se não precisa pensar em blindagem; as janelas abrem-se propositalmente a quem chegar. As portas estão sempre destrancadas, uma vez que esse é o sentido da vida: oferecer carona, mesmo que você nunca possa precisar do outro.
Quem transita amando não precisou de escola para guiar, não fez provas para obter uma carteira de habilitação, pois amar não exige blitz.

DIOGO ARRAIS

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29 de março, 2017

HAVIA UMA FAIXA NA FESTA

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Havia uma faixa na festa, com o clássico dizer “Felizes para sempre!”. Distante da conversa que se passava à minha volta, debrucei-me no sentido da mensagem.
Como criança curiosa, paralisei o pescoço, olhar àquele horizonte. Pensei: não seria linguisticamente melhor registrar “Felizes hoje!”? Não. As pessoas pensariam que no amanhã o casal seria infeliz.
E se a faixa fosse: “Felizes até morrer!”? Pior ainda. Termos fúnebres não combinam com a comemoração matrimonial.
Pensei, pensei, pensei mais um pouco. Tive que aceitar a expressão temporal (ou atemporal) “para sempre”, estampada ali a todos.
Embora tudo acabe, até eu fico mais feliz com a suposição da eternidade, sendo sincero. Tudo que é eterno tem uma magia; tem um quê da divindade na Terra; tem uma mitologia ao redor. Comida eterna, música eterna, risada sem-fim, companheirismo infindável, a bebida que nunca se seca, aquelas fotografias lotadas de roupas chiques (igualmente eternas!), o rever eterno de parentes e amigos distantes, ou seja, vivendo e sabendo que o momento não mais acabará.
A compreensão da frase foi me contagiando, a gargalhada surgindo, a felicidade ressoando no interior. Chamei o garçom e disse: “Se não houvesse o racionalismo da eternidade, não chegaríamos tão distantes na caminhada vital, tampouco em memórias. Lembranças eternizam. Se não fosse para ser sempre, nem memória teríamos.”
Respondeu o sábio da serventia: “Eu nunca me esqueço de festa nenhuma. Sempre me lembro dos casais, das festas, das declarações, das pessoas. Talvez elas não se lembrem de mim, mas eu as guardo aqui (com o dedo apontado ao peito). Não acho que nada sentimental entre em extinção, porque tudo que foi criado para ser para sempre não acaba. Existe sempre a danada da memória. Quem não quer acreditar no ‘para sempre’ deve deixar de ser humano.”
Ali, brindamos mentalmente.
Fui correndo até o fim do salão, valseando meu andar e percebendo os olhares de aflição em meio à minha insana atitude. Fiquei de joelhos à frase. Levantei o braço e pedi que gritassem: “Felizes para sempre!”
Contagiados pela loucura da eternidade, todos repetiram.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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