10 de janeiro, 2018

UMA SEMENTE QUE FLORESCESSE VOCÊ

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Poderia existir uma semente que florescesse você. Que os bons ventos pudessem polinizar a vivacidade de suas cores, espalhando seu olhar pelos parques, difundindo sua presença, plantando sua luz.
Se houvesse uma semente que florescesse você, beija-flores aplaudiriam a ópera de sua poesia; eles se alimentariam de uma doçura que jamais conheceram; voariam ainda mais plenos, ágeis e sorririam mais liberdade.
Uma flor que fosse você faria das árvores dicionários de adjetivos puros, com aquele gosto de mel que jorra de seus lábios, e as abelhas cantariam em uníssono, como num coral em época natalina.
Uma flor que assim fosse atrairia os anjos para que eles fortificassem ainda mais suas asas brancas de calmaria e pudessem professar pelo mundo as honrosas lições de paciência, fraternidade e de paixão.
A ciência passaria a acreditar mais, o céu mudaria de cor, os planetas dariam as mãos.
Flores de você são versos jamais criados, porque não se inventa o que deve ser apenas plantado. Mesmo o tempo, este que corre sem que ninguém pare, teria a necessidade de tirar retratos ao seu lado para contemplá-la pelo eterno. O tempo, um grande espectador de tudo.
É assim o meu desejo, o meu imaginário – que houvesse uma semente a florescer tudo aquilo que vem de sua alma, do seu espírito, da sua admirável forma de dormir e acordar, de lutar serenamente e de dividir. Também de perdoar.
Seria uma honra eu ser a terra, e que alguma divindade agricultora pudesse me escolher como o terreno a tê-la. Que eu fosse arado para recebê-la. Não me importaria em ter que mudar minha humana forma (uma forma renascida, renata!), pois seria uma questão de sorte tamanha vê-la aqui crescer.
Seria eu a terra que riria, a terra que abraçaria com cuidado aquela semente: muito mais que vida, mas a mais pura noção de bem-estar. Vendo nascer seu cálice, repassando nutrientes da chuva que pediríamos e tornando nossa natureza um verdadeiro lar fantástico de amor.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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08 de janeiro, 2018

A Humildade e a Avó

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Num dia, o ser passa a entender que só chega além se pedir desculpas. Se for mais humilde, mais humano, tentando ser menos errante. Porém, como é difícil admitir um erro, um vacilo, um escorregão. Vem à mente a dura sentença: “É melhor mesmo mudar de assunto!”.
Erro também tem a ver com perdão. Quem erra geralmente gosta de ser perdoado (isso, o perdão, dificilmente ocorre). É muito curioso como os dois lados da moeda (digo, conversa!) precisam ser humildes – ora para ouvir, ora para não julgar. Mesmo porque a outra parte, num dia, errará.
Meu amigo, e quando dói na gente?.. e se for contra um nosso parente? Contra o nosso duro trabalho? Aí está lançada a confusão, e não tem essa de português benfeito na sala de estar. É mandar aos quintos dos… deixa para lá. E todo o cuidado com os excessos some. Complexo demais e o risco é abissal!
É certo ou errado estar certo de algo?
Acredito que sofram menos os que têm simplicidade; o cidadão avoado de besteiras. Aquele cidadão ou cidadã despretensiosos, com os olhos cheios de verdade e um coração tão doce (mas tão doce!) que faz lembrar a nossa avó dando presente à gente, com o bilhete de letrinhas tremidas, em noite de Natal.
Avós normalmente dizem: “Será que é tão bom ter razão em tudo que se faz? Eu, meu filho, é que não sei de nada (e no fundo elas têm um caminhão de histórias).”
Vó é a criatura que mais faz questão de mostrar a intenção. Tenciona ser humilde, um grau de bondade a que qualquer um quer chegar. Ama, desligando-se de picuinhas e valorizando o que há de bom. Deixando de perseguir episódios negativos; buscando novos rumos à paz.
Humildade é uma virtude tão respeitosa que quem tem não fala. Quem acha que é não é. No entanto, quem exercita ser um pouco é (e isso é bonito demais).

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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02 de janeiro, 2018

EMA QUASE DESISTIU DE AMAR

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Ema, poetisa de primeira linha, resolvera abandonar a veia sentimental por recente decepção amorosa. Ela não achava justo receber pedradas ao invés de flores; abreviações no lugar de palavras. Pegou todo o seu arquivo poético e decidira que incendiaria cada verso. Faria uma espécie de ritual, ao lado de sua melhor amiga. Não titubeou e pegou o telefone:

– Rita, Ritinha, não quero mais saber de homem algum. Apareça hoje aqui, às nove, e não precisa trazer nada. Beberemos o melhor.

Rita mal teve tempo de pronunciar ao contrário o nome de Ema (como sempre fazia alegremente). Atendeu ao pedido da amiga e chegou o mais pontual possível. A porta já estava entreaberta, e a cena era a mais lamentável possível (com exclusão do Jazz ao fundo).

– Ema, por favor, não faça isso. É tudo tão lindo e profundo. Não deixe que o mundo molde seu jeito de ser.

Ema estava convicta. Tinha um choro carregado, que durara intensos minutos, mas – à medida que Rita implorava ser ouvida – as lágrimas menos densas eram.

– Ema, minha Ame benquista, minha poetisa, logo você que me ensina tanto amor! Eu imploro, continue cuidando de nossos miocárdios!

– Eu? Quem sou eu? Sou apenas uma mísera escritora engavetada da rua dos Remédios, 45.

– Quer mesmo morrer de sede das palavras? Que autoflagelo é esse de não se render ao seu dom azul mais nobre? Você é mar em peito, numa maré cirúrgica de amor. O que faremos sem sua sensível arte? – insistia a amiga, já tomada por uma inédita sensibilidade.

Nunca se desafia um amante de paragens drummondianas. Ema curvara-se diante das inúmeras resmas grafadas. Pediu perdão às páginas como quem pede perdão a um ente querido. Beijou muitas delas.
Rita ofereceu-lhe uma caneta e versos surgiram puros como nascente de rio. É Ema já ciente de que não consegue viver sem amar.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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