28 de setembro, 2017

FELICIDADE

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Felicidade: o único alvo em comum das pequenas criaturas que habitam este mundo. Um estado de contentamento o qual se chama bem-estar. Miudezas energéticas, infelizmente passageiras, que justificam a arte do viver.
Volta e meia questionamos – o que é ser feliz?
Felicidade é o aconchego do abraço de mãe, do colo de pai ou dos entes queridos que jorram um amor renascente. É sentir-se benquisto, e quando isso acontece aquelas pessoas ao nosso redor passam a ser família e deixam-nos felizes.
Felicidade é também o gosto da gastronomia simples – o pão com ovo, o bife acebolado, o pudim da roça, o filé à parmigiana do bar da esquina, a lasanha da vó, o açaí da barraca do Joe em Floripa, a moqueca da praia do Mucugê em Arraial d`Ajuda, a caipirinha do Palaphita na Lagoa.
Ser feliz é olhar para trás, ver as memórias e rir sozinho no trânsito. É lembrar o dia em que voltamos daquele showzaço dos Paralamas, com os tênis sujos de diversão. É lembrar o ano-novo à beira da piscina da casa do melhor amigo, com o povo reunido em taças, fazendo os pedidos mais intensos para…. Sermos felizes.
O estado máximo da alma tem muito a ver com liberdade, com o ir e vir, tendo o jardim da alma em primavera longa. Conquistamos a alegria quando aceitamos que cada um voa para onde bem entender. É compreender. É agradecer aos seres verdadeiramente livres, pois eles nos ensinam que os “aprisionados de fato” somente adoecem.
A tal felicidade: a alguns, vem depois de muitos erros; a outros, num estalar de dedos. Não há receita, mesmo alguns insistindo em manuais do sucesso. Pode ser feliz aquele que (tendo o bem no peito) aja contra a maré social.
É viajar na segunda-feira e voltar. Ou não mais voltar. É fotografar. É beijar. É dizer uma cafonice. É andar de meias de algodão pela casa. É pedir perdão. É aceitar. É persistir. É um gole de café. É meditar. É parar numa praça, num parque, pedalar ou correr como o Forrest fez.
É lutar por um maior espaço profissional, é aposentar-se cedo para pescar com os amigos, é mudar de profissão, é trocar uma ideia com um mendigo, é ler um poema na escola, é ouvir o som que agrada aos tímpanos. É ser chique, é ser clichê, é não julgar, é amar custe o que custar.
Ao por menos um tempo, todos nós fomos, somos e seremos felizes.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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20 de abril, 2017

SALA DE CINEMA

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Sala de cinema é um dos templos do amor. Lá, o silêncio do imaginário dará ação às mãos, a se conhecerem mais. Lá, o beijo seguirá o roteiro, em acordo aos ritmos das cenas projetadas na tela. Lá, nem mesmo os mais broncos resistirão à aula de etiqueta do romantismo.
Para os mais tímidos, são confortáveis as luzes semiapagadas – e do muito tempo para refletirem ainda mais sobre o flerte. A cabeça pende ao pescoço alheio e por ali pode ficar até o clímax.
É um alívio à timidez não ter que falar nada: apenas deixar a linguagem corpórea exalar poemas desfabricados, de modo que a outra parte entenda o que quiser.
No entanto, para os desinibidos, o cinema é a preliminar do reavivamento, da adoração à química que lhes fizeram, do toque sincero; é o lembrar de quando o saxofone do coração tocou o jazz mais intenso.
Desinibidos que deixam de ir ao cinema cometem o grave pecado de não observarem como as cenas foram e são produzidas. Desinibidos que não veem mais filmes correm o sério risco de banalizarem a magia do pouco a pouco. São pessoas que podem deixar de ouvir a trilha sonora da vida.
No cinema, é hora de sentir o cheiro da roupa alheia, do pescoço, do braço, da orelha, do estalar dedos e até do raspar as unhas nas digitais de quem o identifica no sentimental.
Sendo decepcionante o enredo do filme, as companhias – no edifício da sétima arte – bastam-se.
Por tudo isso, ir sozinho – ali – nunca será normal. Haverá sempre a pergunta da funcionária da bilheteria: “Uma entrada só?”.
Ficar sozinho àquela poltrona é uma das maiores noções do faltar. Faz frio, por mais que ar-condicionado esteja desligado. O barulho da pipoca incomoda; o cheiro, então, intragável. A espuma do assento não gera conforto algum, mesmo que se esteja numa daquelas salas VIPs.
O cinema não é balcão de piano bar. O cinema não foi concebido para se afogar as dores da solidão, muito menos para o deleite da liberdade do solteiro. Ir sozinho ao cinema é como ir desacompanhado ao motel.
Por essas e outras, que sempre reflito: como está a minha frequência cardíaca na igreja de Tarantino?

DIOGO ARRAIS

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13 de abril, 2017

Fábrica de Risos

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Tinha dedos atípicos, orelha desproporcional, sorria com dentes separados, a voz não seguia afinação alguma, não sabia organizar a mala de viagem, a gargalhada estremecia o vagão do metrô, não falava inglês (e se esforçava horrores com o portunhol), era desastrada, mas exalava o dom perfeito de transformar momentos em festas.

Nunca soube contar piadas até o fim, tampouco entendia as mais picantes. Não mentia sobre entender a história e, mesmo diante de muita gente desconhecida, dizia sonoramente: “Entendi nada!” e “Alguém pode me explicar?” E as risadas multiplicavam-se porque ela ria mais do que quem compreendia o gracejo inicial.

Era assim também com os pratos – grafados em francês no menu. Olhava para mim, ria, e eu já sabia o que se passara. Vinha, abrupta ao ouvido: “Tem alguma lanchonete aqui perto não?”

A fábrica de risos era tão intensa que os garçons deleitavam-se. Houve um que chegou a dizer: “Realmente este restaurante é muito agradável!”

Ora! Não sabia ele o motivo de sermos felizes: a mulher destrambelhada mais incrível na face do universo. Sem vergonha, sem pudor, sem regras, sem tempo ruim, sem preconceito, sem o sem. Com ela, era tudo “com” – com bom humor, com cinco minutos a mais, com indagações evolutivas, com poesia e – claro – com amor.

Jamais me esqueço de sua clássica pergunta, nas tantas imersões gastronômicas por São Paulo: “Quando o chefe traz a carta de vinhos, como saberemos remetente e destinatário? Os Correios vieram entregar?”

Para ganhar um beijo, eu sempre preenchia: “Remetente é meu peito; destinatário é a nossa cumplicidade e emoção. Um vinho que chega é a correspondência sobre nossa história.”

Éramos, em tese, os últimos a sair de qualquer estabelecimento ou recinto, tamanho o nosso compromisso com o viver o momento. No avião, por exemplo, deixávamos todos sair e quando ela levantava….pá! Um tropeço sinfônico. Dávamos as mãos e ouvia daqueles lábios: “Tá tudo certo! Bora!”

A despreocupada, a que nunca reclamava de poses esquisitas em fotos, a leve alma, a sensível com o mendigo, com o velho, com a criança; a não entendedora do teatro, mas a que mais aplaudia a peça.

Dia desses, dialogando com minhas imperfeições (as quais ainda ouso inutilmente esconder), ouço baixinho: “Aquela mulher sempre tirou dez na arte autêntica de viver.”

DIOGO ARRAIS

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