14 de outubro, 2016

NUNCA ESQUECEREI VOCÊ

tumblr_ldiwq7e5em1qfz5f9o1_500

Por mais que dias passem e pessoas venham, eu não esquecerei você. Eu sempre vou me lembrar dos momentos bons que tivemos; vou rir e agradecer; falarei sozinho, como se seu ouvido ali estivesse.
Por mais que dias passem, ainda levarei um trecho dos seus trejeitos – aquela risada rouca quando via uma pegadinha na internet, aquela maneira maluca de cantar a música da Blitz, o olhar que só dizia amor.
Por mais que dias passem, ainda levarei sua bipolaridade, ora num êxtase de agradecimento à vida, ora numa reclamação sem fundamento algum.
Por mais que dias passem, ainda levarei seu abraço, que era muito mais que conquista, porque suas mãos para mim eram uma espécie de família. Cada parte de seu corpo era um ente querido.
Por mais que dias passem, levarei mesmo é sua bondade, porque maldade é algo fácil de se encontrar (e não seria justo guardar lembranças de momentos ruins). Aliás, queremos mesmo é que as energias negativas vão para bem longe.
Você errou? Eu errei talvez muito mais. De perfeição o céu (o céu de verdade mesmo) está cheio, e nem sei se minha alma (daqui a consideráveis milênios) será digna de lá estar.
Espero mesmo é que você saiba quão imperfeito sou, mas minha memória e minha intenção… Ah! Elas passaram no teste da fidelidade de meu peito e só desejam o que – um dia – eu desejei a seu mundo: que você esteja em paz.

DIOGO ARRAIS
www.youtube.com/mesmapoesia – INSCREVA-SE!

Compartilhe este texto
0 Comentários
12 de outubro, 2016

PRECISO VOLTAR A SER CRIANÇA

shutterstock_144352681-e1416938118499

Quereria eu ter aquele poder de recriar mundos com meus amigos de infância. Porque, adultos, queremos todo o mundo real apenas para si. Os erros parecem não doer mais tanto, são sempre justificáveis e partem sempre do outro.
Na fase adulta, brigamos com a ficção, com os poemas, com os idosos, as piadas são temperadas por uma maldade adulta, as preocupações são a causa do divórcio com a alegria, e as brincadeiras bestas de ser o Serginho Mallandro ficaram apenas na memória.
Adultos sofrem com a hora, sofrem com o trânsito, xingam o vizinho, detestam mendigos, estão sempre ao telefone e passam horas tentando descobrir a falha de alguém com que se compete. Personificam o dinheiro, dormem com cifras, e dão vida a números da Bolsa de Valores. Acreditam até em prêmio lotérico como a extinção dos problemas.
Adultos constantemente se colocam em um combate. Fazem questão de soletrar que venceram na vida, pois sua estratégia na guerra funcionou. Alguns adultos hoje têm armas, compartilham sangue, e se orgulham de não terem tempo para quase nada.
Adultos são especialistas em leis, ao mesmo tempo que as odeiam. Adoram Ortografia, Concordância e Direito, deslizam em mesóclise e apedrejam quem não segue a relação plural-plural. Decoram canção que fere o que ele idealiza.
Adultos só se metem a fazer um desenho quando isso é ofício; caso contrário, é vergonhoso tentar ser alguém diferente. Dançar no meio da rua, então, é coisa de maluco. Abraçar um desconhecido? Nem pense.
Eles, os adultos, fazem questão de olhar cor, gênero, sobrenome, religião, passaporte, relógio, carro, tatuagem, cidade natal, bunda, peito, gordura, instagram. São exímios pesquisadores sobre Padrão.
Compreensão, para um adulto, é caminho o qual ele dificilmente escolhe, porque isso seria algo muito infantil da sua parte.
Por isso, muita gente tem uma vontade danada de voltar a ser criança. Os que conseguem são ovacionados em rede nacional.

DIOGO ARRAIS
www.youtube.com/mesmapoesia

Compartilhe este texto
2 Comentários
11 de outubro, 2016

A VENDA DA EMPRESA DE DR. CÉSAR

presidenteed

Wagner era tão fiel ao seu patrão, o doutor César, que os colegas de trabalho desconfiavam da masculinidade daquele empregado tão assíduo. Nada disso. Tudo não passava de desilusão amorosa. Desesperançosos no Amor mergulham-se na carreira profissional.
Com o coração tornando-se deserto, Wagner fizera da CelForte Tecnologia seu verdadeiro lar. Chegava bem cedo, gerenciava a limpeza das salas (assim como o aroma do ambiente que era sempre impecável), fazia um bom café gourmet aos colegas que mais tarde chegariam, revia cronograma de reuniões, escrevia na lousa mensagens de autoajuda.
Doutor César, o dono da CelForte, sempre dizia:
– Wagner, esta empresa é sua casa, meu amigo! Você é o melhor! Brevemente te darei um aumento, viu?
– Fique tranquilo, doutor! Estou feliz com o que ganho. Amo o que eu faço.
E apertavam fortemente as mãos.
Orgulhoso que é, Wagner ia até o banheiro, olhava-se no espelho e emocionava-se por tamanho elogio vindo do antipático doutor César. Os egocêntricos sempre preparam festa a si mesmos.
Os colegas, na maioria atrasados, rotineiros e descompromissados, ficavam reflexivos, vendo Wagner e sua dedicação ao ofício. Recheados de uma inveja feroz que só os humanos conseguem ter, diziam:
– Esse aí deve ter algum caso com o chefe. Poxa! Só o cara aqui é elogiado…
Num belo dia, em meio a uma situação econômica muito favorável do país, Doutor César recebeu uma generosa proposta. Não pensou duas vezes. Vendeu a CelForte Tecnologia por mais alguns milhões que trariam alguma gordurinha à sua conta bancária. Afinal de contas, ricos de verdade são viciados em lucros e em negociações.
Ressabiado, porém, tinha de dar a notícia a Wagner. Antes, pensara:
– Meu Deus, Wagner ficará maluco quando souber. Isto aqui é a casa dele…
Degustando um charuto, pediu para a secretária Vicentina chamar Wagner. Ela assim o fez:

– Senhor, doutor César está te convidando à sala da presidência.

Gente mais amorosa e sensível tem um defeito grave: a intuição. Wagner parecia sentir o término da relação. Gelado da cabeça aos pés, adentrou a sala do chefe:

– Sim, doutor! Boa-tarde!
– Boa-tarde, Wagner, meu amigo! É com o coração partido que lhe dou esta notícia: vendi a CelForte para a Unike do Canadá. Não teremos mais esta estrutura e…

Diante de uma gaguez atípica de doutor César e um longo pedido de desculpas, Wagner iniciou um choro lento.

(…)
Estranhando a demora da reunião, a secretária Vicentina começou a ouvir um som altíssimo de música clássica (que era uma das predileções de doutor César). Agoniada, bateu à porta. Wagner educadamente abriu, deu-lhe um abraço, agradeceu e saiu.
Antes de desmaiar, Vicentina pôde apenas ver Doutor César completamente ensanguentado, com uma caneta no pescoço, sentado em sua cadeira presidencial.

DIOGO ARRAIS
www.youtube.com/mesmapoesia – INSCREVA-SE

Compartilhe este texto
0 Comentários
...10...1819202122...304050...