15 de novembro, 2016

MINHA ESTUPIDEZ

indiferenca

Que bom seria se eu pudesse ter um pouco mais de paciência com o outro. Paciência com os erros, paciência com as indiferenças, paciência com a personalidade alheia. Com o signo, com as manias, com os gostos. Quão melhor eu seria!
Ah! Se eu pudesse me enxergar mais e ver minha estupidez com a maioria das situações… mas não – prefiro me trancafiar na famosa zona de conforto e achar que o outro é o estúpido da história. Santa ignorância a minha!
É como a minha limitação diante de uma garrafa de vinho. Fico a lustrar a taça com opiniões insensatas e a semipostura de um famoso degustador. Ora essas! Eu deveria mesmo era me calar, ou me matricular em curso sobre a agradável bebida. Apreciar não é, de fato, entender.
Em se tratando de pessoas, então, lá vem a minha burrice completa. Fulano é assim, Sicrano é assado e ponto. Quem me deu o direito de achar algo de alguém? Ninguém, até mesmo porque opinar sem fundamento é causador de um mal sem-fim. Os dias passam, e pareço não entender…
Como eu querer amar uma mulher sem procurar compreendê-la? É a velha frase em traseira de caminhão: “Você só será compreendido quando buscar compreender.”
Apesar disso, é mais fácil emitir um “Nós não tínhamos nada a ver.” ou “Ela é maluca!”. Mais fácil agora, pior depois. Depois vou vendo que o errado da história foi pensar que o ser humano é completo. Depois vou vendo que o meu mais mofado defeito é ter achado que sou alguma coisa. Putz! Que lamentável!
Ser ciente de que “sou nada menos que ninguém”, ao menos durante a escrita deste texto, alivia-me; castiga-me de maneira justa, pois poderá, meu Deus, querer aprendizado sem a mínima paciência.
Ninguém sabe muito, sabemos muito pouco, mas duas pessoas pacientes que sabem muito pouco (e estão a fim de trocar aprendizados) já saberão um pouquinho mais.
É apenas um texto para que você tenha noção do tamanho da minha humana estupidez.

DIOGO ARRAIS
www.youtube.com/mesmapoesia

Compartilhe este texto
0 Comentários
12 de novembro, 2016

MOTEL

fila-do-motel-doutissima-istock

Os hotéis estão abarrotados de casais felizes
De Auroras e Adolfos que celebram núpcias
Tiram retratos
Dançam valsa
Fazem poses com suas brilhosas alianças
Recebem ligações telefônicas com desejos longínquos

Os hotéis são sempre o convidado mais importante do matrimônio
São o que os motéis jamais serão
Hotéis são finos na recepção e em quartos
Orgulham-se ao som do piano bar
Escorrem prazer em lençóis com pétalas rosadas de promessas
Cheiram glamour

Em hotel, sonham
Em motel, somam

Hotéis têm postura
Motéis não precisam dela

Na rede hoteleira, ninguém acha o gemido
Na moteleira, os gritos abafam quaisquer campainhas

Não há curso para camareira de motel
Ninguém lá vê currículo
Não se importam com a boa educação
Não se sabe o nome
Nem sobrenome
Ninguém tem nada a ver com a história
Muito menos com o carro
Alguns não têm estacionamento
Manobristas não arrumam trabalho ali
A recepção só o fiscal de postura conhece
Aceitam dinheiro, cheque, cartão, nudes, vale-transporte, menos a imprensa

E digo: já trabalhei em lugares hotel, e outros Motel

Prega a romântica terapeuta
Tem casamento amaldiçoado quem ao motel vai na lua de mel

Hotel é família real
Motel marginal

DIOGO ARRAIS
www.mesmapoesia.com.br

Compartilhe este texto
0 Comentários
12 de novembro, 2016

TRÁS-OS-MONTES

ferreira-cafe11

Trás-os-montes
não sei o que significa
vivo ignóbil
vil
abjeto
mal ouço burburinho

deveria ser marca
quiçá cidade
rótulo de vinho

pouco sei de palavra
cria do diabo hífen
não entendo acordes
tampouco rimo

não viajo
beber é pecado
durmo sozinho

Nunca fui a Portugal
li poucos livros
sobre romances sempre estou indeciso
invejo passarinho

Não sei quem é Pessoa
já quis desvendar alguns versos
“no entanto” é expressão vazia
não posso
sou muito menino

tudo por causa de Trás-os-montes
por não ter ouvido explanações
por não conhecer cidades
por não ter arranhado cores
por não querer carinho

DIOGO ARRAIS
www.mesmapoesia.com.br

Compartilhe este texto
0 Comentários
...10...1819202122...304050...