22 de janeiro, 2018

SOBRE O VERBO CONVALESCER

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Que a palavra expresse o sentimento límpido, que as pessoas revelem ainda mais o íntimo bondoso, que não se tenha o temor de errar, que os erros não sejam desculpas, que os acertos ocorram cada vez mais.
Já viu céu eternamente cinza? Já viu dia sem chuva, ou chuva incessante? Mas já viu o vento alegre, mas já assistiu a um pôr do sol musical, mas já notou o milagre da criação, mas já viu mares e rios sorrindo belezas incondicionais.
Que o amigo entenda, que a mãe sempre esteja, que o pai surpreenda, que vô e vó acolham de onde estiverem, que os irmãos felizes sejam, que a família num todo sempre aqueça. Que as desavenças desapareçam, que os rancores não mais passem do que episódios bestas.
Porque teremos saudades, porque teremos carências, porque teremos aqueles mesmos velhos problemas, mas a essência da luta, fé e força convalesce.
No sugestivo subjuntivo deste desenrolar de palavras sinceras, que não haja o desprezo, que não haja o escárnio, que não nos comparemos, que não nos sacrifiquemos a ponto de esquecer o que é o bem, que – apesar dos desvios – exista a humildade.
O amor é honesto, o amor apenas machuca quando não queremos entender a lição, ou mesmo quando nós escolhemos o caminho doloroso. Amar nada mais é do que o aprender constante, diário, sem querer que tudo ocorra como imaginamos. É utópico a quem é utópico, é distante a quem é distante, é presente a quem se faz presente, é recíproco a quem é.
Se tudo fosse perfeito, seríamos perfeitos; defeitos nos moldam constantemente, já que precisamos entender a que e a quem viemos. Uns entendem mais lento, mas todo ser ciente aprenderá no seu tempo.
Que tudo seja em função de construir uma digna história, que sejamos recheados de boas memórias, que a crença melhore, que o riso cesse todas as lágrimas tristes, que os fortes ajudem os fracos, porque num dia os fracos serão fortaleza a doar serenidade.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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19 de janeiro, 2018

SER SOL, NUNCA SÓ

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RESSIGNIFICAR: o que era pedra, mas polido pela persistência de amor incansável, passa a ser flor. O fantástico só existe quando há a crença na magia; seres fantásticos não temem em usar a fantasia a favor. Ao contrário dos descrentes, audaciosos íntegros renascem aquilo e aqueles que desejam intenso.
Por isso,
RECOMEÇAR: sorrir quando se volta ao ponto inicial, apesar do irônico da plateia mundana. É fazer tudo com a mesma energia, contudo ciente das lições aplicadas. Ter vários inícios é sinal de vários caminhos; é nobreza dos que vêm com a certeza de quererem o sonho. Rever rotas, revisar as asas, descansar para voar pleno.
Por isso,
REPASSAR: passados só são úteis para futuros de céu azul e tranquilidade; quando não são positivos, devem ser deletados com a ajuda das fontes amorosas no lar. Ninguém quer repassar maldade, mas o faz (in)consciente, porque tornar a batata quente pote de ouro é tarefa diária. Pensamento ruim é como luz alta de caminhão na estrada – a alma fica desgovernada.
Por isso,
RENASCER: hoje é o dia de dar à luz, amanhã também, e depois, e depois. Está-se grávido de novos egos, novos dias, novos abraços, novos perdões. A força do “Eu amo você!” é não olhar para trás ressentido, mas sim renascido. “Eu amo você!” é a maternidade de uma nova pessoa. “Como você mudou! Que aconteceu? Eu apenas renasci.”
Por isso,
REVIGORAR: sempre é hora de ressentir, embora tenha o verbo duas estradas significativas: “magoar-se” ou “tornar a sentir”. Tornar a sentir é gostar das pulsações, de afeto, de atenção e de ser ouvido. Daí, renasce o revigorado. É como o sol: que nasce e morre todos os dias aparentemente igual, conquanto não seja. Pessoas são sóis, não podem fugir da função de aquecer, da função de brilhar. Uma vez que não mais é assim, deixa de fazer sentido. Revigorar todos os dias as outras estrelas ao redor: ser Sol, e nunca só.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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18 de janeiro, 2018

EU PRECISO CHORAR

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Tenho que admitir: sou muito fraco com sentimentos. Não pretendo jogar contra eles, pois sei que não vou vencê-los. Também não é o meu desejo fazer isso. Mensagens atenciosas têm um poder (des)graçado de mudar o meu dia, a minha vida.
Seja falada, seja escrita, seguindo ou não a gramática normativa, mensagens sentimentais acionam a fábrica de lágrimas que sou. Meus amigos às vezes me dizem: “Não seja trouxa. Você vai é se machucar!”. E eu sempre desobedeço.
Sou um caçador dessas mensagens do peito. No aeroporto do Galeão, que agora é Tom Jobim, passei uma vergonha horrorosa. Em frente ao restaurante, havia um poema de Vinícius e fui cair na besteira de lê-lo em voz alta. Não deu outra: disparei a chorar. Uma comissária que passava, com toda aquela elegância, perguntou: “O senhor está passando bem?”. Nem caí na besteira de dizer que estava recitando para mim mesmo.
Neste ato confessoral, também houve um dia em que consultei meu amigo médico Sócrates para saber se existiria remédio contra a emoção. Irônico, ele disse: é não viver.
Muito mais que cenas de filmes, os discos de vinil do Frank Sinatra… Ah! São uma sacanagem só às pálpebras. O inchaço chega a durar 48 horas. Exatamente dois dias: já calculei isso, porque quando ouço os bolachões na sexta-feira, é só praticamente na segunda o dia de receber alta.
Minha busca vital é mesmo por momentos únicos em emoção: quando presencio que me perdoam e compreendem essa espécie de “anomalia”, fico lotado de “muito obrigado com olhos úmidos!”
Já não me sinto importunado com os vários apelidos que já ganhei: manteiga derretida, chorão, dramático… Acho engraçado.
Com os dias vividos, parei de pedir ao Grande Relojoeiro do Mundo para me tirar a chuva de lágrimas. Porque – que seria de mim se não houvesse a emoção?
Nem inteligência artificial, nem aplicativo de celular, nada substituirá a coragem e a legitimidade da água mais purificada do mundo: aquela que mostra alguém feliz.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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