03 de março, 2017

VOCÊ É VALE

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Você é vale, coberta de céu azul, rodeada de árvores sorridentes. Os pássaros curvam-se para o caminho de seus lábios, cantando livres nos acordes de sua paisagem. As folhas, debruçadas com o vento, fazem um chiado pacífico – num vaivém que corta o ar de tanta emoção.
As nuvens reúnem-se de mãos dadas, e já não querem mais aquelas tempestades. Elas estão tão branquinhas que apenas refletem a harmonia do clima sereno, seu, de nada pedir, mas apenas agradecer. Nuvens são sempre mais bonitas quando foram criadas sem a poluição de mentes.
Você é vale. Lá no meio, há uma cachoeira a escorrer no seu seio centenas de bilhões de moléculas límpidas. Do alto, reparo, e minhas lágrimas imitam o mesmo movimento – como um córrego a caminho desse rio.
As gramas sempre tão verdes são a base daqueles algodões que se encantam por frutificarem em terreno fertilizado pela liberdade. É sua pele, macia, de mulher que abraça, que não joga, que se declara. Seu solo é como poesia despretensiosa, sem rima, grafada com o pulso.
Correndo um pouco, tropeço por querer. Deito-me sobre flores amarelas e roxas. Elevo algumas, e é como se beijasse seus pés. Cometo a insanidade de, ali mesmo, fazer um buquê e sorrir frases com pensamentos ainda inexistentes. Faz um sol que não arde, que apenas bronzeia minha pequenez corpórea. Algumas formigas chegam a aplaudir.
Descobrindo um pouco mais, chego a uma sombra. Olho para cima. É o reflexo da cabeleira mais cheirosa que pude sentir na vida. Descanso, pacifico-me, até ser acordado por um canto ao longe. Minhas memórias vão até o momento em que sou capaz de desenhar cada centímetro de suas pernas, você bailando diante da minha visão.
Quanto mais admiro, mais beleza vejo.
Eu chego a esse local de maravilhas assim que abro a porta de nossa casa. Você está sempre de braços abertos; paro as horas; contemplo seu jeito natureza de ser. Preciso confessar-lhe: é revivente encontrar o vale.

DIOGO ARRAIS – @diogoarrais

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22 de fevereiro, 2017

REFLEXÃO

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Com o intuito de aproximar-me mais da felicidade, procuro sempre refletir sobre algumas questões.
Para não me arrepender? Conto antes. Não existe ninguém no mundo que não tenha pensado em loucuras. O pensamento é um território que precisa ser dividido. O único segredo à confissão é confiar. Se confio, falo com a medida para não ofender.
Por que não ser machista? Machismo é uma desgraça. O homem que se acha superior à mulher carrega a dor implacável de distanciar-se do amor ou ter alguém apenas por interesse material. Homem assim não vê que se definha ao longo do tempo; não pede ajuda; não admite fraqueza carnal ou espiritual. Acha que é “de aço”, quando é – pois – o mais fraco.
O que eu quero de uma parceira? Que me traga bons risos, que me deixe ser livre, que seja saudável, que entenda meus sonhos, que seja por afinidade.
Gargalhar? Sempre!
Posso demorar a chorar? Jamais, pois quando as lágrimas demoram, será um desespero total do acúmulo. Choro é como suor, é externar algo corpóreo, vital à mente e ao corpo. O choro de saudade, o choro de amor, o choro aleatório, o choro por pedir perdão, o choro por ter gratidão… A emoção equilibra o miocárdio.
Errei? Digo logo que errei, sem medo, sem trânsito bobo. Mesmo que esteja diante de um grande líder no mercado de trabalho, ninguém no mundo acertou a vida inteira. O imperdoável será querer reverter um erro grosseiro em acerto de filósofo grego.
É muito curioso como as pessoas estão dispostas a perdoar, mas para isso é preciso ação, plantio de novas atitudes, de gentilezas até então não vistas. Desconheço algum caso no mundo em que a humildade não tenha reconstruído novos dias.
Posso desejar o mal? Desejar o mal a alguém é um atestado claro de sofrimento. Vale a competição, o querer ser líder, o buscar mais espaço. Não valem o ódio, o envio de energias negativas, o transferir prejuízo a alguém.
Sou perfeito? Não. Caminho lentamente para minimizar erros, para entender a dor do outro, para respeitar mais, para calar-se mais, para estudar mais, para agradecer mais. No entanto, quero melhorar e isso já é um degrau.
E se me criticarem mesmo assim? Isso é inevitável. Seres estão em estágios distintos.
Ao fim da reflexão acima, costumo elogiar, pois esse verbo tem uma força danada.

DIOGO ARRAIS

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10 de fevereiro, 2017

MERCADOLÓGICO

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Numa relação amorosa saudável, não há mercado, não há currículo, não há chefia, não há subordinação, divisão de lucros, metas ou código social de conduta. No entanto, muitos transferiram o mundo corporativo às relações pessoais. Passaram a buscar um amor mercadológico.
Assim sendo, o parceiro ou a parceira punirá qualquer deslize, pois não quer um companheiro, mas sim um funcionário. Não aceitará atrasos, cancelamentos ou mudança de planos. Pedir tem a linguagem da ordem. Vive “treinando” a pessoa amada, para futuramente selarem um Certificado de Pessoas Hábeis ao Casamento Perfeito.
Quando a relação se parece com o mundo empresarial, acontecem reuniões protocolares, para tudo há um horário, existem recompensas pontuais, as contas bancárias são símbolos de alegria ou tristeza. Não há confraternização sem motivo – tudo é condicionado à produtividade e o egoísmo está em alto volume. Chegar à presidência fascina.
Uns são tão exigentes que quase soletram aos amigos: “Eu demiti a pessoa da minha vida!”. Expressões desta forma são comuns: “Ela não se encaixava nos meus parâmetros.”, “Não tinha ambições suficientes!”, “Não tinha as graduações necessárias para o Amor.”.
Na relação mercadológica, existe o interesse, e não existe o contemplar. Tudo, absolutamente tudo, tem regra; é burocrático (até mesmo o sexo). E o pior: não entendem o porquê de usarem a expressão “falência”. Ora essas! Vivem como se fosse uma empresa, querem administrar o sentimento como um bem material. A busca não é por coração aberto, mas uma sociedade limitada.
Sócios não se contemplam por horas, não têm olho no olho, não ficam deitados largados pela sala de estar, não se admiram lentamente. Sócios têm fome de capital, mas não da troca de elogios. Sócios querem construir paredes, salas enormes, mesas descomunais, garagens automatizadas em um condomínio fechado.
Sócios não caminham descalços pelo parque, às onze da manhã de uma segunda-feira, não leem um poema ao outro, não fazem mais cócegas, não contam piadas bestas no meio do voo de férias. Infelizmente se programam para chorar apenas em dia fúnebre.
Sócios precisam verbalizar em restaurantes chiques a palavra mais subjetiva da humanidade: sucesso.

DIOGO ARRAIS para o blog mesmapoesia.com.br

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