12 de janeiro, 2016

Paola e o Extraordinário

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Paola sempre teve grande apreço pelo extraordinário. Recitava sempre em voz alta versos de Allan Poe; filosofava nas melodias de Hendrix; ajoelhava-se diante de Sarah Vaughan.
Como ela sempre dizia, não buscava apenas um amor: buscava olhos com asas, peito lacrimejante, mão com cordas vocais. Não se satisfazia com o mundo considerado como normal. Sua afeição era o extraordinário.
Chamar-lhe para briga era dizer Paula.
– É Paola, com o O fechado, em circunferência, num girar sem-fim, por favor!
Abrir seu guarda-roupa era como abrir um livro; cada peça, uma página; cada detalhe, um parágrafo. Seus algodões, sílabas que teciam a alma encantadora de menina, mulher, sedutora, escultura.
A palavra de Paola fora registrada em diversos muros do bairro: “Para ser comum basta não se emocionar com o Surreal”, “Quanto mais velha fico, mais amo árvores que abraçam formigas”.
Às sextas-feiras, tinha o hábito de ficar horas desenhando na sacada de sua casa. Usava vestidos que harmonizam com a paisagem. Era doce, a ponto de desejar bons-dias às suas plantas e abraçar pores do sol.
Antes de se tornar estrela, deixou a seguinte mensagem, em seu testamento:
A vida sem fantasia é nudez cretina.

DIOGO ARRAIS – @mesmapoesia

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12 de janeiro, 2016

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22 de dezembro, 2015

Simplicidade é Riqueza que não se pode Comprar

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Calção, copo americano, camiseta cavada, calçada, sombra de árvore, estilo vira-lata. Diante da simplicidade, não há regra. Do jeito que chegar chegou.
O ser simples normalmente serve ao outro para depois se servir. Ri com todos os dentes, abraça sem armadura. Olha no olho sem aquela malícia temperada com Malagueta. É o famoso camarada que xinga a fim de os outros rirem; xinga sem ofender e, quando ofende, talvez o interlocutor nem perceba.
O ser simples sofre com o excesso de padrão, acha um verdadeiro martírio a convenção social, gosta de Raul, e não entende tantos acordes partidários da senhora de terninho no ar-condicionado.
O negócio da simplicidade, chefia, é o pão com manteiga e a risada contra a barra de proteína; o cara é Tim Maia no Opalão laranja, chinelo de couro sentado em frente ao Farol, radinho de pilha ligado no jogo do Santa Cruz, caneta Bic a preencher a palavra-cruzada no Jornal do Commércio, cerveja Malt 90, refrigerante Baré Cola, batuque da Nação Zumbi no coreto do centro, máquina Olivetti, poema do Drummond, cartum da Rê Bordosa, crônica do Xico Sá.
Simples é palavra nobre até à gramática, não há outro S (desnecessário) indicativo de plural. Ele é simples, eles são simples, caramba!
Barbosa, eterno meio-campo do Mivina Esporte Clube, era o da risada amarela e rouca, que brilhava o dia de todos do Salão Globo. Chegava com as repetidas camisas vermelhas – inspiradas em Telê Santana – e gritava os números da Loto. Engraxava o Vulcabrás mesmo sem necessidade, pois curtia a eficiência do engraxate. Procurava decorar nome, sobrenome, data e local de nascimento de cada um daquele salão. Odiava Google. Cumprimentava um por um e repetia rindo sério: “No Brasil, meu amigo, ou você ri ou morre de dor!”
No dia de sua partida, até a criançada perdera o riso. Fora um ser humano tão simples que o prefeito nem entendera tamanha comoção. Voou com a velha e boa camisa vermelha.
Com sempre poucos cruzeiros na conta, Barbosa redigiu – com o canivete herdado do avô – no galho de seu quintal: a simplicidade é a riqueza que não se pode comprar.

DIOGO ARRAIS – @mesmapoesia

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