18 de setembro, 2015

Passear Você

PASSEARVOCE
De longe, ficava reparando suas esquinas. Permitia – com muito prazer – que meus sentidos passeassem por você. Aquela mania fez-me apaixonar por suas geometrias.
Já se passaram mais de dez anos e certamente você nunca soube como estive por cada caminho seu. Percorria suas ruas, seus caminhos de terra, andava por suas calçadas, implorando por suas mãos. Volta e meia, parava-me em frente a seu mirante e via seu pôr do sol.
Ninguém que estava ao meu lado entendia minha paralisia daquelas horas. Eu apenas dizia que estava passeando. Isso geralmente ocorria no intervalo das aulas na Faculdade.
Certa vez, tive a bela surpresa de ver o nascer do seu sol, brilhando cada rua de seus bairros, seus semáforos, suas rótulas. Imagem surreal que guardo nos meus desejos mais insaciáveis, das minhas descrições mais secretas.
Naquele seu sol, debrucei-me na sua esquina mais sensual, aquela da direita, perto de sua igreja. Fiquei naquele lugar que me trazia pensamentos duradouros, reconfortantes e de diversos pecados.
Por tempos, procurei inventar motivos para me mudar para seus lugares, já havia até escrito uma carta a toda a minha família, relatando o motivo de minha definitiva mudança. Faltou mais coragem. Talvez tenha gastado todas as minhas invenções para achar caminhos diferentes para passear em você.
Recordo-me de cada placa, de suas brancas sinalizações, de seus edifícios, de suas praias, de suas cachoeiras, dos seus quartos sempre cheirosos, de suas livrarias repletas de lições, de seus teatros em art déco, de cada pequenino restaurante seu e aquelas taças sempre formosas. Em seu ser, puder ver as paisagens mais invejadas pelas fotografias. Sem medo algum, sei que minha visão encontra-se num estado mórbido, de depressão, por jamais ter visto tantos cenários de luz, pecado e perdão.
Este texto é, no mínimo, um alento. É, outrossim, um pedido para que você reapareça e que não deixe meus olhos secarem. Volte àquele banco de concreto, ao lado da biblioteca, ajeitando seus fios de cabelos – que a mim são as mais nobres imagens de amor.
Saiba: preciso, com urgência, estar em suas habitações. Temo pela visão e sentidos.

DIOGO ARRAIS
@diogoarrais e @mesmapoesia

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14 de setembro, 2015

Seu Beijo é um Mundo

SOBREOBEIJO

Antes de você, os beijos eram apenas beijos. Com você, os beijos passaram a ser uma transposição a um novo mundo. Seus lábios, aeronaves, levavam-me para onde não há tempo, onde não há sede, onde não há vento, onde não há cores, onde não há nada – a não ser seu beijo.
Antes da sua chegada, os ponteiros sacrificavam-me, mostrando atrasos desnecessários, passares dos dias, dos meses, de tempos apenas marcados. Era a amarga angústia por não conhecer as carnes que me ligavam a uma abstrata sensação de viajar.
Com seu beijo, pude saber como, de fato, é voar; como, de fato, é sentir cada instante dado a um homem-pássaro. Com o simples triscar daquela sua parte corporal, meu ser fazia as malas, arrumava-se, vestia a melhor camisa, calçava-se de artérias e partia para o tal paraíso.
Lá, nem audição havia; eu era apenas convidado pela língua a degustar mensagens codificadas em um idioma ainda desconhecido no meu mundo pré-beijo seu.
Nesse lugar, não havia a necessidade de luz, não me sentia na escuridão. O medo tinha medo de ser medo e jamais afrontara nossas vontades de beijar. Emocionado, quis escrever algo sobre. Em vão, já que eu era dominado completamente por uma esfera prazerosa e que faziam mãos serem muito mais que caligrafias.
O mundo ao qual seu beijo levava-me também não conhece a gravidade. Nada ali cai, nada ali pesa, simplesmente paira e os impostos giram em torno de carícias. A necessidade era apenas essa.
De repente, estávamos no meio de uma avenida famosa, de uma metrópole brasileira, quando nos aproximávamos e… pronto! Estávamos já dentro daquela sua inimaginável aeronave. Num instante, chegávamos. Você, ciente da direção, ao ser indagado para onde me levava, abriu lentamente os olhos e sussurrou no ouvido de seu único passageiro: amor.

DIOGO ARRAIS
@diogoarrais e @mesmapoesia

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10 de setembro, 2015

FOI DIFÍCIL VÊ-LO

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Foi difícil vê-lo.

A praia estava praticamente deserta, éramos eu e uma música do Coldplay no fone de ouvido, as ondas não conspiravam para ação alguma, o clima parecia ser o pior possível, as gaivotas – naquele dia – não compareceram.

Foi difícil vê-lo.

Sentada, sozinha, com o olhar já meio bêbedo perante o horizonte, veio um clique mental para que buscasse uma água de coco, na solitária barraquinha próxima ao asfalto. A força da mente fora maior que a da preguiça daquele e fui. Detalhe: mulheres têm uma incrível crença na força do pensamento.

Foi difícil vê-lo.

De largo sorriso, o ambulante ofereceu-me a água geladinha, quando os cílios se assustaram: um outro olhar, do outro lado da rua, fitava-me em irretocável sintonia. Tudo, a partir daquele instante, mudou: as gaivotas apareceram, o sol sorriu, as ondas me abraçaram em suas marés já não tão solitárias assim.

Foi difícil.

De trêmulas pernas por um olhar, não houve como voltar. Não havia ninguém que pudesse julgar meu ímpeto. Mesmo descalça, sem qualquer tipo de aceno, eu decidi atravessar areia e rua, para ir ao encontro daquele olhar.

Difícil.

Mudar a paisagem ali seria necessário. O risco temperava cada pêlo meu contra o vento. Nem me importei com a faixa de pedestre. Sem qualquer tipo de diálogo, houve, aconteceu, existiu, e estamos juntos até hoje. Cada detalhe daquela cena ficou como um dos melhores retratos da minha vida, simplesmente porque acredito que – apesar da dificuldade – o amor pode estar nas mínimas e improváveis cenas.

DIOGO ARRAIS
@diogoarrais e @mesmapoesia

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